Isto Agora Só à Fala”
Regressei recentemente a Maputo para participar num encontro que juntou escritores espanhóis, com
obra sobre África, e africanos de língua portuguesa. Achei Maputo bastante melhor do que há três
anos, quando pela primeira vez visitei Moçambique. Encontrei ruas limpas, muito comércio,
excelentes hotéis e restaurantes. O contraste com Luanda chega a humilhar qualquer angolano. Já
não é apenas o Hotel Polana, cujo desenho, semelhantes ao do ainda mais famoso Copacabana Palace,
remete para um cinematográfico passado de fausto e esplendor. Nos últimos anos foram construídos
hotéis e modernos centros comerciais, e recuperados boa parte dos edifícios históricos, bem como
as amplas vivendas dos bairros nobres. A cidade inteira, que, ao contrário de Luanda, nunca
chegou a perder a fresca cobertura vegetal, respira uma espécie de tranquila felicidade.
Capital muito jovem, que apenas em 1898 roubou aquele título à Ilha de Moçambique, Maputo está
todavia muitos anos à frente de Luanda, uma das cidades mais antigas de toda a África a Sul do
Sahara. Como explicar um tão impressionante desfasamento?
A paz, lembrarão alguns, chegou alguns anos mais cedo a Moçambique – e com a paz a democracia.
Certo. É verdade que os dirigentes moçambicanos são forçados a prestar contas aos seus concidadãos,
e ainda aos países dadores, pois Moçambique continua a depender, em larga medida, da ajuda externa.
E, Angola, pelo contrário, os nossos dirigentes não se sentem obrigados a prestar contas a ninguém.
Acreditam, presumo, que é o povo quem os deve servir a eles e não o inverso.
Mesmo em plena guerra, porém, Maputo nunca alcançou os extremos de degradação que Luanda exibe.
Os dirigentes moçambicanos, na sua maioria de origem camponesa (Samora Machel era uma espécie de
Savimbi que deu certo) souberam adaptar-se melhor à cidade, e respeitá-la, do que muitos
governantes angolanos nascidos em Luanda, alguns, inclusive, no seio da antiga aristocracia
escravocrata, gente de quem se esperaria, pois, algum refinamento, resultante de uma larga tradição
cosmopolita.
Este confronto, mais ou menos explícito, entre o campo e a cidade esteve, a propósito, no centro de
quase todos os debates deste I Encontro de Escritores Ibero-Africanos. Nelson Saúde, poeta e
antologiador de poetas, exaltou veementemente o cosmopolitismo e a mestiçagem de culturas, por
oposição às tradições rurais; e àquilo a que se convencionou chamar literatura oral, com a qual,
efectivamente, uma boa parte dos nossos escritores já não tem nada a ver. Saúde, que é hoje um dos
directores dos Caminhos de Ferro de Moçambique, assume orgulhosamente a sua condição de africano
negro, porém rigorosamente não genuíno, porque herdeiro não apenas das tradições dos seus avós,
mas também de todas as culturas, de todas as cores, que ao longo da vida atravessou. Paulina
Chiziane, uma escritora que conseguiu nos últimos anos, criar um público ainda restrito, mas muito
atento, em países como a Itália, a Espanha e, em especial, a Alemanha, com uma escrita rural e
feminina, defende, pelo contrário, a riqueza do mundo do qual cresceu, a urgência de o trabalhar
literariamente, e a sua universalidade.
Ambos estão certos. Parte da riqueza da literatura moçambicana, da mesma forma que da literatura
angolana, resulta desta diversidade de perspectivas que, note-se, dribla elegantemente a raça dos
seus autores. Mia Couto, por exemplo, de pele clara e olhos azuis, partilha o mesmo terreno
literário de Paulina Chiziane. Entre nós estão nesse terreno, entre outros, Uanhenga Xitu e Ruy
Duarte de Carvalho.
Admito, no entanto, que, a longo prazo, vença a opção de Nelson Saúde. Se a literatura fosse um
caminho-de-ferro a proposta de Paulina seria apenas um apeadeiro, um lugar curioso, a visitar, e o
cosmopolitismo o destino principal. A comparação entre Luanda e Maputo serve para recordar,
contudo, que um camponês pode revelar-se mais urbano do que muitos citadinos, e isto também é
verdade na literatura.
[ Encontro com a Escrita ]
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Inserção em 28 de Fevereiro de 2006.
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