LITERATURA E URBANIDADE:Isto Agora Só à Fala”


de José Eduardo Agualusa

in Jornal “A Capital", de 15 a 22 de Outubro de 2005.


Regressei recentemente a Maputo para participar num encontro que juntou escritores espanhóis, com obra sobre África, e africanos de língua portuguesa. Achei Maputo bastante melhor do que há três anos, quando pela primeira vez visitei Moçambique. Encontrei ruas limpas, muito comércio, excelentes hotéis e restaurantes. O contraste com Luanda chega a humilhar qualquer angolano. Já não é apenas o Hotel Polana, cujo desenho, semelhantes ao do ainda mais famoso Copacabana Palace, remete para um cinematográfico passado de fausto e esplendor. Nos últimos anos foram construídos hotéis e modernos centros comerciais, e recuperados boa parte dos edifícios históricos, bem como as amplas vivendas dos bairros nobres. A cidade inteira, que, ao contrário de Luanda, nunca chegou a perder a fresca cobertura vegetal, respira uma espécie de tranquila felicidade.

Capital muito jovem, que apenas em 1898 roubou aquele título à Ilha de Moçambique, Maputo está todavia muitos anos à frente de Luanda, uma das cidades mais antigas de toda a África a Sul do Sahara. Como explicar um tão impressionante desfasamento?

A paz, lembrarão alguns, chegou alguns anos mais cedo a Moçambique – e com a paz a democracia. Certo. É verdade que os dirigentes moçambicanos são forçados a prestar contas aos seus concidadãos, e ainda aos países dadores, pois Moçambique continua a depender, em larga medida, da ajuda externa. E, Angola, pelo contrário, os nossos dirigentes não se sentem obrigados a prestar contas a ninguém. Acreditam, presumo, que é o povo quem os deve servir a eles e não o inverso.

Mesmo em plena guerra, porém, Maputo nunca alcançou os extremos de degradação que Luanda exibe. Os dirigentes moçambicanos, na sua maioria de origem camponesa (Samora Machel era uma espécie de Savimbi que deu certo) souberam adaptar-se melhor à cidade, e respeitá-la, do que muitos governantes angolanos nascidos em Luanda, alguns, inclusive, no seio da antiga aristocracia escravocrata, gente de quem se esperaria, pois, algum refinamento, resultante de uma larga tradição cosmopolita.

Este confronto, mais ou menos explícito, entre o campo e a cidade esteve, a propósito, no centro de quase todos os debates deste I Encontro de Escritores Ibero-Africanos. Nelson Saúde, poeta e antologiador de poetas, exaltou veementemente o cosmopolitismo e a mestiçagem de culturas, por oposição às tradições rurais; e àquilo a que se convencionou chamar literatura oral, com a qual, efectivamente, uma boa parte dos nossos escritores já não tem nada a ver. Saúde, que é hoje um dos directores dos Caminhos de Ferro de Moçambique, assume orgulhosamente a sua condição de africano negro, porém rigorosamente não genuíno, porque herdeiro não apenas das tradições dos seus avós, mas também de todas as culturas, de todas as cores, que ao longo da vida atravessou. Paulina Chiziane, uma escritora que conseguiu nos últimos anos, criar um público ainda restrito, mas muito atento, em países como a Itália, a Espanha e, em especial, a Alemanha, com uma escrita rural e feminina, defende, pelo contrário, a riqueza do mundo do qual cresceu, a urgência de o trabalhar literariamente, e a sua universalidade.

Ambos estão certos. Parte da riqueza da literatura moçambicana, da mesma forma que da literatura angolana, resulta desta diversidade de perspectivas que, note-se, dribla elegantemente a raça dos seus autores. Mia Couto, por exemplo, de pele clara e olhos azuis, partilha o mesmo terreno literário de Paulina Chiziane. Entre nós estão nesse terreno, entre outros, Uanhenga Xitu e Ruy Duarte de Carvalho.

Admito, no entanto, que, a longo prazo, vença a opção de Nelson Saúde. Se a literatura fosse um caminho-de-ferro a proposta de Paulina seria apenas um apeadeiro, um lugar curioso, a visitar, e o cosmopolitismo o destino principal. A comparação entre Luanda e Maputo serve para recordar, contudo, que um camponês pode revelar-se mais urbano do que muitos citadinos, e isto também é verdade na literatura.

[ Encontro com a Escrita ] Inserção em 28 de Fevereiro de 2006. [ Página Principal ]