Isto Agora Só à Fala”
Recebi em mina casa, recentemente, um exemplar de “Lavra”, denso e belíssimo volume, da
responsabilidade dos Livros Cotovia, que reúne toda a poesia de Ruy Duarte de Carvalho, publicada
entre 1970 e o ano 2000. Nestes dias em que tanta gente vocifera, num justíssimo furor, contra o
comportamento dos serviços consulares portugueses em Luanda, e por extensão contra os portugueses
em geral, vale a pena voltar a ler os versos de um homem que é, talvez, o melhor de tudo quanto
Portugal deixou (esquecido) em Angola.
Nascido em Santarém, em 1941, e criado no Namibe, Ruy Duarte de Carvalho passou a vida inteira a
estudar, a filmar e a celebrar, através da poesia, as populações do deserto. Dizer que se trata do
maior poeta angolano é não dizer quase nada. Trata-se, sim, sem qualquer dúvida, de um dos maiores
poetas vivos que escrevem em português, ao lado, senão mesmo à frente, de um Ferreira Gullar, ou de
um Nuno Júdice.
O extraordinário é que Ruy Duarte permaneça ainda quase ignorado entre nós, vítima da indiferença
de quem o não compreende porque carece de formação para o compreender e do ácido silêncio invejoso
daqueles que, compreendendo-o, o preferem todavia ignorar.
Fora de Angola, em Portugal, no Brasil, e pouco a pouco noutras geografias mais árduas, Ruy Duarte
começa a ser conhecido e reconhecido. Num balanço de 2005, António Mega Ferreira, respeitadíssimo
nome da cultura portuguesa, actualmente à frente do Centro Cultural de Belém, falava com assombro
do mais recente romance – vamos chamar-lhe romance – de Ruy Duarte, “As Paisagens Propícias”,
dizendo tratar-se do que melhor havia lido, em português, nos últimos tempos.
Para aqueles que estão familiarizados com a obra de Ruy Duarte, ler “Lavra” é também uma forma de
avaliar a evolução do poeta. Curiosamente, muitos dos primeiros poemas com que abre o livro
permanecem actuais, quer formalmente, quer, inclusive do ponto de vista das ideias. Leia-se, por
exemplo, um poema dedicado a Benguela, escrito há mais de trinta e cinco anos: “dorme Benguela /
ventre gasto de poetas frustres / exangue combustão de fé perdida / (…) / dorme Benguela /
mal-amada sombra de um quintal vendido / tapume podre de um remorso azedo / mangal viscoso de
intenções veladas / coceira ardente, chaga prometida / dorme, Benguela / fadiga permanente / meu
perpétuo odor / de sacrifício vão”.
Ruy Duarte é património comum de Angola e de Portugal, um pouco como, por exemplo, a Fortaleza de
São Miguel. Devia ser cuidado, e festejado, por ambas as partes. Receio, contudo, que só daqui a
um bom par de anos, depois de Ruy Duarte se tornar um fenómeno de culto em França ou no Reino
Unido, o que acabará por acontecer, os nossos intelectuais se lembrem dele. A grande ironia é que
teriam mais eles a ganhar com isso – em descobri-lo e festejá-lo – do que o próprio Ruy Duarte.
[ Encontro com a Escrita ]
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Inserção em 20 de Março de 2006.
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