O Arco do Carvalhão
Conheci o Arco do Carvalhão por volta dos meus 8, 9 anos. Estive lá uma única vez, porém o
suficiente para não esquecê-lo!
Dou comigo recordando-o, numa tentativa de que os pormenores não se esbatam na lembrança... quem
sabe se um dia poderei estar lá fisicamente e conferir o real com a visão que guardo!
Há cerca de dois anos atrás, falei com a minha prima Lena Calado, que também morou em Moçâmedes,
e descrevi-lhe o local. “É assim mesmo.”, disse-me... Já que é assim, vou recordá-lo!
Em Moçâmedes, como disse, moravam os Reis Calado: ele, Eduardo, casou com a Dinah, filha da
Tia Elvira (ramo Elvira da Costa Rodrigues), irmã da minha Avó materna. A Dinah é portanto
prima-direita da minha Mãe. Os seus filhos, a Lena e o Jorge (já falecido), são mais velhos do
que eu.
O convívio era constante e não se limitava a visitas... Participámos juntos de muitos passeios
nos arredores daquela cidade encravada no deserto... dos carnavais moçamedenses, das caçadas aos
caranguejos, nos arredores da cidade, nas noites de verão... bastava que levássemos um farolim
e o apontássemos para o chão... lá estavam eles, presas fáceis, pitéu delicioso!
Um dia, os mais velhos resolveram ir ao Deserto do Namibe. Tenho uma vaga ideia de que, além
das nossas duas famílias, havia amigos porque o grupo era numeroso. Partimos cedo... havia a
ideia de que, se aparecesse caça, os homens iriam dar “o gosto ao dedo”...
Não apareceu a chamada “caça grossa”... só avistámos as cabras-de-leque (antidorcas
marsupialis angolensis), que ocorrem em regiões desérticas ou semi-desérticas (o caso de
Benguela - Parque Natural Regional da Cimalavera)... Estes mamíferos ruminantes, são da
família das gazelas, porém menores; são velozes e, tal como as suas parentes, têm um porte
elegante.
O nome “cabras-de-leque” deve-se ao facto da sua cauda abrir-se como se de um leque se tratasse
quando estão muito felizes ou, então, no momento da sua morte. É uma manifestação
espantosamente linda que acontece somente em duas ocasiões tão marcantes da sua vida!
O primo Eduardo resolveu atirar... Ser caçador não era o seu forte... De longe, escolheu a
sua vítima, fez várias tentativas, mas em vão... Tentou várias posições... Lembro-me de vê-lo
encostado ao “capot” do carro, apontando a mira e “pum!”... um tiro! A cabra-de-leque continuou
de pé... Experimentou outra posição: ajoelhou-se, apoiou o cano da espingarda no guarda-lamas
e atirou! Finalmente, a gazela foi atingida e caiu ferida de morte...
Entrámos nos carros e aproximámo-nos do animal caído: os seus olhos grandes e tristes
transmitiam toda a dor da dor, a dor da morte que se aproximava... o leque foi-se abrindo...
Tanto a minha Mãe como eu éramos estreantes nessas aventuras. Lembro-me de vê-la chorar... e
ouvi-la dizer que jamais quereria assistir a cena igual!
Não me recordo de ter chorado, mas cresci com o gosto de admirar os animais selvagens vivos,
brincando no seu habitat, às vezes lutando pela sua sobrevivência, mas vivos!
Terminada a caçada, que para uns terá sido uma experiência igual a tantas outras e para outros,
digo, outras, o contrário, tomou-se o caminho para o Arco do Carvalhão.
Tenho tentado saber o local exacto onde se encontra. Foi-me dito que fica dentro de uma
fazenda perto de Tombua, a antiga Porto Alexandre. Mas isso não importa; importa, sim, que
existe o Arco do Carvalhão (provavelmente o seu nome já não será este...).
No deserto, a paisagem era de cor amarelada... cor da areia, pela falta das chuvas... o sol
forte... No meio dessa aridez avistámos o oásis... De longe, parecia um amontoado de rochas
ovaladas, de enormes dimensões, sobrepostas, formando uma espécie de morro. Ao aproximarmo-nos,
apercebemo-nos de que aquele amontoado tem um arco natural que dá acesso ao seu interior... Lá
dentro, a lagoa, os nenúfares flutuando na sua superfície... A temperatura ali é o oposto do
calor do deserto...
Contava-se que havia quem ali chegasse e se refrescasse nas suas águas... que houve quem, depois
de uma lauta refeição, se tivesse atrevido a mergulhar e não tivesse sobrevivido em consequência
de uma óbvia congestão!
Ao redor da lagoa havia espaço suficiente para nos acomodarmos, estendermos as nossas toalhas,
tomarmos a nossa refeição... passearmos e explorarmos os seus os recantos...
Na memória estão, acima de tudo, as sensações que o lugar me transmitiu: a paz... a beleza...
afinal, lá fora, está o deserto que, apesar da sua majestosa imensidão, de todas as
características que o fazem único no mundo (v. "O Deserto do Namibe" em “A Província do
Namibe”), é o seu oposto...
Chegada a este ponto da minha crónica (tenho por hábito ir registando o que me ocorre sobre os
vários temas que escolhi - um processo que pode durar meses... estamos em Outubro de 2002...),
invadiu-me o sentimento de insatisfação por considerar ser pouco o que poderia contar acerca
deste oásis do Deserto do Namibe.
Num impulso, liguei-me à Internet e pesquisei: "arco+do+carvalhao" e
"oasis+namibe"... e mais uma vez confirmei que esta Grande Rede Mundial é um mundo
fantástico!
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