Desenhos de João M. Mangericão

 



Homenagem ao saudoso ANTÓNIO JACINTO




O GRANDE DESAFIO

Naquele tempo
    A gente punha despreocupadamente os livros no chão
ali mesmo naquele largo - areal batidos dos caminhos passados
        os mesmos trilhos de escravidões

        onde hoje passa a avenida luminosamente grande
e com uma bola de meia
        bem forrada de rede
bem dura de borracha roubada às borracheiras do Neves
        em alegre folguedo, entremeando caçambulas
          ... a gente fazia um desafio...

O Antoninho
        Filho desse senhor Moreira da taberna
Era o capitão
        E nos chamava de ó pá,
          Agora virou doutor

          (cajinjeiro como nos tempos antigos)

          passa, passa que nem cumprimenta
- doutor não conhece preto da escola.

O Zeca guarda-redes
        (pópilas, era cada mergulho!

        Aí rapage - gritava em delírio a garotada)
Hoje joga num clube da Baixa

Já foi a Moçambique e no Congo

Dizem que ele vai ir em Lisboa
          Já não vem no Musseque
Esqueceu mesmo a tia Chiminha que lhe criou de pequenino

nunca mais voltou nos bailes de Don´Ana, nunca mais

Vai no Sportingue, no Restauração
        outras vezes no choupal
          que tem quitatas brancas

Mas eu lembro sempre o Zeca pequenino
          O nosso saudoso guarda-redes!
tinha também o Velhinho, o Mascote, O Kamauindo...

- Coitado do Kamauindo!
        Anda lá na casa da Reclusão

        (desesperado deu com duas chapadas na cara

        do senhor chefe

        naquele dia em que lhe prendeu e lhe disparatou a mãe);
- O Velhinho vive com a Ingrata
          drama de todos os dias
        A Ingrata vai nos brancos receber dinheiro

        E traz pro Velhinho beber;
- E o Mascote? Que é feito do Mascote?

Ouvi dizer que foi lá em S. Tomé como contratado.


É verdade, e o Zé?

Que é feito, que é feito?
          Aquele rapaz tinha cada finta!
            Hum... deixa só!
Quando ele pegava com a bola ninguém lhe agarrava
          vertiginosamente até na baliza.


E o Venâncio? O meio-homem pequenino

que roubava mangas e os lápis nas carteiras?
            Fraquito da fome constante

            quando apanhava um pinhão chorava logo!
          Agora parece que anda lixado
              Lixado com doença no peito.
Nunca mais! Nunca mais!

Tempo da minha descuidada meninice, nunca mais!...

Era bom aquele tempo
      era boa a vida a fugir da escola a trepar aos cajueiros

      a roubar os doceiros e as quitandeiras

      às caçambulas:
Atresa! Ninguém! Ninguém!

tinha sabor emocionante de aventura
            as fugas aos polícias

            às velhas dos quintais que pulávamos


Vamos fazer escolha, vamos fazer escolha
            ... e a gente fazia um desafio...

Oh, como eu gostava!
        Eu gostava qualquer dia

        de voltar a fazer medição com o Zeca

        o guarda-redes da Baixa que não conhece mais a gente

        escolhia o Velhinho, o Mascote, o Kamauindo, o Zé

        o Venâncio, e o António até
            e íamos fazer um desafio como antigamente!

        Ah, como eu gostava...

Mas talvez um dia

quando as buganvílias alegremente florirem

quando as bimbas entoarem hinos de madrugada nos capinzais

quando a sombra das mulembeiras for mais boa

quando todos os que isoladamente padecemos

nos encontrarmos iguais como antigamente

talvez a gente ponha
          as dores, as humilhações, os medos
desesperadamente no chão
        no largo - areal batido de caminhos passados
          os mesmos trilhos de escravidões

onde passa a avenida que ao sol ardente alcatroamos

e unidos nas ânsia, nas aventuras, nas esperanças
        vamos então fazer um grande desafio...

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