O Cabo Negro
A placa de mármore cravada na rocha de formas estranhas, que se vê nas fotos, tem cerca de 50 cm altura por 60 cm de largura, e um corte em forma de ranhura funda como moldura, a dois centímetros das margens e podia ler-se ainda, mas com dificuldade, mas sempre do lado direito no fim da primeira linha,
As letras entalhadas, muito esbatidas já. A data mencionada talvez fosse de - ou por volta
de - 1939, 1949 ou mesmo 1959. Será necessário confirmá-la, possivelmente em relatos escritos
sobre alguma comemoração no local.
Qualquer coisa me diz ser possivelmente uma data dessas, não sei por que causa histórica, mas
parece-me já ter lido algo sobre isso há muito tempo.....em criança talvez, até relativamente á
Mocidade Portuguesa, á história de Gago Coutinho, ou de qualquer coisa assim. Creio até que
foi Setembro, o mês do meu aniversário. Seria Dom Moises Alves de Pinho????? Cardeal,
Arcebispo, creio eu!!!!!!
Para lá ir, pode chegar-se com o automóvel (4X4, obviamente), tirando-se algum ar das câmaras de
ar dos pneus, de todos igualmente, para melhor se conduzir na areia, como se faz no deserto, e
indo pelo Sul para a parte mais alta, em declive macio. Depois caminha-se bem a pé, sem
qualquer problema, cerca de 50 metros.
Vasculho com os olhos toda a área... Vou-me aproximando e, como num filme, em zoom,
tristemente confirmo o que jamais imaginei: encontro-me perante o que restou do Padrão de
Diogo Cão. A sua história, todos a conhecemos, devidamente fundamentada e largamente difundida,
para quem se interessa pela História da Humanidade.
O toco, deixado por vândalos da inconsciência e das paixões políticas levadas ao extremo, nada
mais é que a sua base com cerca de 40 cm de lado por cerca de 25 cm de altura até ao chão, aonde
se eleva, quebrado de Poente para Nascente, num ângulo de 50 graus, com 60 cm no ponto mais alto
do corte. O tronco do Cruzeiro tem cerca de 24 cm de diâmetro.
Possivelmente foi construído com algum tipo de calcário granulado, como aliás se vê no Cabo
Negro, e está muito desgastado pela acção do tempo.
Quando me propus visitar o Cabo Negro, que não conhecia, perguntei a muita gente, dali mesmo e
de Porto Alexandre, se sabiam aonde era a cabeça do Diogo Cam, e ninguém soube informar-me.
Foi a minha teimosia e a certeza de que o que o meu Avô escrevia era absolutamente EXACTO, que
me fez e ao motorista Fernando, de Benguela, escalar pedras e a falésia, perigosa, e depois, por
fim, decidir-me a ir por baixo, pela praia, até um ponto mais dentro do mar... mas não muito,
quando há baixa-mar (não era baixa-mar na altura). Teimosamente, dizia a mim próprio: “Se o
meu Avô disse e fotografou como sendo aqui, TEM QUE SER AQUI!” (Há os que, dizendo-se
conhecedores da região, se referem à “Ponta Negra” como se fosse um outro local, muitíssimo mais
ao Norte, e a Norte de Mossâmedes!)
Para se ver o "busto de Diogo Cam" ou a "cabeça de Diogo Cão", deve sair-se sempre duas horas
antes da baixa-mar, a partir de Porto Alexandre - ou Tombua, como erradamente se lhe designa
hoje aquela angra tão bela (o nome usado pelos habitantes do Deserto para designar a
welwitschia mirabilis é tumbo) - pelo Sul e pela praia junto do Cabo, até aonde
o carro puder ir, o que se faz sem problema, mas tomando-se sempre as devidas e acima
mencionadas precauções, até uma distância de cerca de cem metros da ponta do cabo.
É claro que é necessário saber-se dirigir em areia, fugindo sempre das curvas muito apertadas -
quanto mais largas melhor, pois numa curva fechada os pneus sem pressão poderão sair das
jantes - e nunca forçando movimento algum, nem acelerando demais.
Instala-se o carro em ponto relativamente mais alto que as marcas da maré-alta anterior deixadas
na praia, e desloca-se a pé, sem problemas, e como que em reflexão meditativa, até á base do
Cabo Negro junto ao mar, pela praia molhada, na direcção Sul-Norte.
A chegada ás rochas da base é feita sem o mínimo perigo, até para crianças, - com cuidado para
não escorregar ao subir ás rochas baixas - e tem-se a admirável visão que tantos outros antes
de nós tiveram, maravilhados. O meu Avô, há 100 anos, inclusive, aquele apaixonado pelas terras
que adoptou como suas, sem jamais haver regressado "à Metrópole" após ter vindo para Angola,
concluído que teve o seu Curso em Coimbra e no Porto, e com toda a certeza, deleitado e
sentindo-se sublimado também, como Diogo Cam ter-se-á sentido há 518 anos.
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