labor omnia vincit... "O trabalho tudo vence"...
Estas são as palavras inscritas no brasão da cidade de Mossâmedes ou Moçâmedes, hoje Namibe...
Acredito que o lema não terá sido escolhido para que servisse de orientação àqueles que lá se
fixaram... os luso-brasileiros e os algarvios de Olhão. Era, antes, a sua convicção de atitude
perante a vida.
Porque assim se fez obra e muito rapidamente: o trabalho levantou esta cidade das areias do
Deserto do Namibe, com toda a adversidade que se pode imaginar existia em meados do séc. XIX
(v. artigos "Dados Históricos" e "A Cidade-Coragem" na secção "A Província do Namibe".
Quando a cidade completou 100 anos, em 1949, tinha eu 5 anos. É claro que não poderei descrever
o que aconteceu. O que tenho registado na minha memória são cores, movimento, nada mais. Que
as comemorações, com a duração de 8 dias, foram minuciosamente programadas, do que resultou um
evento perfeito, tanto na área cultural como lúdica, foi sempre o que os meus Pais referiram.
Foi assim que os naturais da cidade, que residiam noutros locais de Angola, foram convidados pela
Câmara Municipal, a sua deslocação paga pela mesma, para que a razão económica não constituísse
motivo para que não comemorassem com os seus conterrâneos data tão importante.
A cidade recebeu a visita de cortesia de 2 barcos de guerra portugueses e 3 sul-africanos. As
bandas desses navios actuaram no coreto, na avenida principal (Av. Praia do Bonfim), frente ao
Banco de Angola.
Nas porções mais frequentadas do jardim que percorre vários quarteirões da cidade, havia
pavilhões que representavam vários países ou actividades culturais e económicas. Os/As
atendentes vestiam-se a rigor, combinando com o tema do pavilhão.
Os edifícios públicos receberam iluminação especial... a Câmara Municipal esmerou-se na sua
decoração luminosa...
Mas não só os edifícios foram realçados...
Quando refiro acima que a lembrança que guardo é de cores, de movimento, imediatamente me vem à
memória uma iluminação especial: a da chamada "ponta do pau do sul" (Ponta do Noronha é o seu
nome correcto) que demarca o lado sul da baía de Moçâmedes, toda a área circundante à Torre
do Tombo, bem como a Fortaleza de São Fernando, brilhavam na noite escura, iluminadas por uma
fileira de incontáveis pequenas tigelas repletas de cebo cujo pavio aceso emprestava um aspecto
feérico a toda aquela zona...
É curta a descrição que faço das comemorações do centenário da cidade de Moçâmedes? Pode ser...
Mas suficiente para se avaliar a capacidade de organização daquelas gentes... daquela cidade...
em pleno Deserto do Namibe...
Para enriquecer esta crónica, transcrevo a palestra de Manuel Augusto de Pimentel Teixeira. Foi
proferida a 4 de Agosto de 1939, quando a cidade comemorou os seus 90 anos. Estamos a uma
distância no tempo de quase 64 anos... O mundo não parou de girar, as ideias e os
ideais alteraram-se, a História re-escreveu-se ... Dirão também: "10 anos antes do
centenário?" Que importa? Reflecte já as generosas características das gentes de
Moçâmedes e do resultado dos seus esforços... que continuaram... quando comemoraram o centenário,
10 anos depois e sempre!