O Brasil emancipara-se, proclamara a sua independência que, a breve trecho, o próprio Portugal
reconhecia.
Nação pujante que nascia para o Mundo, almas sedentas de liberdade, território imenso em que cada
estado abarcava uma área superior à das grandes nações da Europa, cada um dêles chegou a querer
para si uma independência absoluta.
Idealistas e visionários, como autênticos descendentes dum país de sonhadores, aqui com um
caudilho, ali com outro, depressa surgiram sedições e revoltas a que o Poder Central mal podia
acudir, assim se enlutando por largos anos o território brasileiro.
Nem todos os portugueses ali residentes simpatizaram com a nova nacionalidade e até qualquer
fútil pretexto lhes servia para, de armas na mão, protestarem contra essa independência em que
êles veriam uma diminuïção do prestígio pátrio, um cerceamento de território ao domínio de
Portugal, que o seu esfôrço e o de seus maiores tinha desbravado e povoado.
Envolvidos, decerto, nessas lutas fratricidas, logo que sufocada, em 1848, a última revolta em
Pernambuco que tinha em mira proclamar a independência da Federação do Equador, é natural que
sôbre os portugueses se desencandeassem os maiores ódios e malquerenças!
Tornou-se-lhes, portanto, necessário abandonar o Brasil, onde eram olhados como elementos de
desordem, como inimigos, como estrangeiros, senão como traidores!
E visionaram então noutro ponto do Globo um novo Brasil em que mais uma vez demonstrassem ao
Mundo que, para o ânimo português, não há desalentos que lhe amorteçam a energia, nem sonhos que
o seu esfôrço não saiba e posso converter em realidades!
Se os seus maiores se tinham ontem aventurado “por mares nunca dantes navegados”, porque não
iriam êles desbravar terras nunca dantes conhecidas?
E olhando o mapa de Angola, abandonando a terra que entenderam madrasta e lhe pretendia roubar a
nacionalidade de que tanto se orgulhavam, aportaram a 4 de Agôsto de 1949 à então chamada Angra
do Negro.
Seduziu-os – quem sabe? – a sua vasta baía, as suas águas calmas espraiando-se dolentes em
ligeiras ondulações.
Não lhes quebrantou o ânimo a imensidade do areal onde se não descortinava a mais insignificante
mancha de verdura!
Mar deserto como a terra, terra deserta como o mar, que importava isso à sua Fé!
E sonham, talvez, melancólicos pinhais, laranjeiras em flôr cobrindo as areias sem fim, a cujas
sombras virão um dia cantar suas alegrias ou carpir suas mágoas em versos saüdosos da Pátria
distante!
Seu ânimo é arrojado, sua Fé é grande, e bem poderão, pelo seu trabalho, transformar montes em
planícies, derrubar milenárias florestas lá para o interior, para delas surgirem vergeis
floridos, profundar a terra virgem para nela lançarem as sementes de longe trazidas como
tesoiros!
Transformar o humus em pão e com êle criar energias que os conduzam à vitória, tal seria o sonho
dêsse punhado de obscuros heróis cujos nomes e esfôrço a Pátria mal relembra!
Tarefa grandiosa que levaria anos, iniciada por êles cheios de ardor e entusiasmo, seguros de
que à sua geração outras se haviam de suceder, encontrando no seu exemplo fonte perene de sãs
energias que lhes dariam o alento necessário para mais alongarem as fronteiras da Pátria
estremecida.