E, semelhando fugitivas caravanas diante do invasor triunfante, êles aí vão, areais em fora,
caminhando, caminhando sempre, em procura duma veiga de terra onde possam construir uma choupana
e lá, no mais alto do cêrro, firmar tôsco mastro onde hastear a bandeira bi-color com suas
quinas e castelos.
Pegureiros do Progresso, missionários da Paz, arautos do Trabalho, olhos incendidos em Fé,
corações trasbordando esperanças, ei-los se fixam nos vales dos rios Bero e Giraúl, seguindo os
mais audazes em busca doutros oásis que finalmente encontram nas margens do Munhino.
Por ali se espalham êsses paladinos do Trabalho, pois que para além o horizonte se cerra com os
contrafortes inacessíveis da Chela, ciclópica muralha natural com suas cristas emergindo das
núvens!
Por ali se ficam, êsses modestos colonizadores, sob um calor esbrazeante de 40º à sombra, tão
insensíveis às catadupas que dos céus se despenham, como ao rugir das feras que da selva os
ameaçam!
Fortes na sua missão, não se acovardam perante o rigor dos elementos nem perante o incógnito que
por tôda a parte os rodeia e breve surge a cabana coberta de colmo, a geira de terra desbravada
onde começam a verdejar os legumes e os cereais!
Dois..., três anos de labor e luta, e a geira desdobra-se em longas campinas onde a cana sacarina
ondeia ao vento os seus longos penachos, ou em várzeas sem fim, em que os casulos de algodão
branquejam quais flocos de neve em tapetes de verdura!
Depois, desaparece a cabana e surge o amplo casario de paredes fortes como muralhas, porque era
necessário estarem preparados para resistir aos ataques do gentio tantas e tantas vezes repetidos
com sucessivos insucessos!
Fortalezas, talvez, mas retintamente casas de aldeia portuguesa, milagrosamente transportadas
para terras de degrêdo, com sua pequena loja para o negócio, celeiros e arribana, e lá mais ao
longe a eira lageada com longa alpendurada, onde, nas horas cálidas, se acolhem os gados e cães
de guarda, tal como em Portugal!
Em baixo, a casa do trapiche, as cubas de fermentação, o alambique e até rudimentar aparelhagem
por êles feita, para o fabrico do açúcar!
Longas coberturas de telha mourisca, amplos portados de bom granito ou de tijolo vermelho
destacando-se no alvadio das paredes, tudo surgira do seu porfiante trabalho!
De vez em quando, lá descem à vila, atravessando areais sem água, carreando o que a enxada e o
arado tinham arrancado à terra e que eles enviam para Lisboa em troca de produtos que as suas
geiras lhes não podiam fornecer.
Foi assim que por volta de 1875, Mossâmedes chegou a exportar anualmente 800 toneladas de
algodão, ao passo que em 1932 – 57 anos depois – a exportação de tôda Angola apenas atingiu 585
toneladas!
Cheios de Fé, lá regressavam aos seus novos lares, às suas terras, sempre na esperança dum ano
mais fértil, “a-pesar-do último não ter sido mau”, como êles uns aos outros diziam para
mutuamente se animarem.
Mas, que haveria por detrás daquela gigantesca muralha que ainda hoje se chama a Serra da Chela?