O Centenário
Estaria sôbre ela algum outro Adamastor defendendo as terras de Além?
Que lhes importa!...
E um dia lá vão uns tantos de abalada, na ânsia de descobrir o que a natureza parece querer
ocultar-lhes e, talvez convencidos de que o Mundo fôra feito para os portugueses lhe desvendarem
os mistérios!
Galgam enfim a Chela, fundam a povoação da Huíla e, como se aquêles poucos fôssem avalanche,
rápido seguem além, muito além, e assim surge a Chibia e a Humpata, os Gambos e o Humbe, e tantos
outros núcleos de comércio e agricultura.
Entretanto, os que haviam ficado pelo litoral e vizinhanças, não descuravam a sua tarefa e das
primitivas choupanas ia surgindo a ridente Vila de Mossâmedes, forte alicerce da futura cidade,
enfeitando-se as margens do Bero, do Coroca, do Giraúl e de S. Nicolau, com suas hortas que eram
e são ainda verdadeiras quintas.
Atraídos pela fauna marítima, cuja riqueza é incalculável, outros pioneiros vieram.
Eram novos colonos, ou melhor, novos colonizadores vindos do Algarve – terras de moiras
encantadas e amendoais em flôr – fazendo a longa travessia em frágeis caíques e palhabotes que
passavam a ser ali utilizados na navegação costeira.
Famílias completas de navegantes e pescadores faziam de Mossâmedes a sua nova Pátria,
transferindo para ela as suas artes, a sua experiência e seu saber.
Povoou-se o mar de batéis e canôas, animou-se a praia com o grito ritmado dos pescadores puxando
as redes em que o peixe espadana e abunda, dando-se início à indústria de salga e seca de peixe,
que é hoje a mais importante indústria de Angola!
Com esta nova plêiade de incansáveis trabalhadores se povoa Pôrto Alexandre, Baía dos Tigres,
Baía das Pipas, Mocuio, Baba, Salinas, Lucira, etc., criando-se de facto o distrito de
Mossâmedes, dilatado território de maior área que três vezes a de Portugal e cuja existência foi
estabelecida de direito, por um decreto do Govêrno Central.
Assim tomou foros de realidade o que ontem fôra simples aspiração dum restrito número de
portugueses que os mossamedenses jámais esqueceram, cuja vida de lutas inclementes lhes tem
servido de bússola na continuação da sua grandiosa obra aos quais, comemorando a data da sua
chegada, aplicam estes versos do nosso Épico:
Tais foram os portugueses que há precisamente 90 anos desembarcaram na praia deserta de Mossâmedes, cidade que hoje se impõe como um dos mais perduráveis padrões da nossa acção colonizadora, tais foram os obscuros heróis do arado e da enxada, cuja memória os mossamedenses relembram neste dia e a quem vão erigir um monumento – projecto de Simões de Almeida Sobrinho – que para todo o sempre relembre aquêles que, através de mil sacrifícios, conseguiram alicerçar com inabalável firmeza a linda e hospitaleira cidade de Mossâmedes, onde a raça portuguesa vai já na quarta geração.
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