Feliz Dipanda!
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Estávamos em pleno cacimbo…
O dia amanhecia quando a porta do avião se abriu…
Olhei para o horizonte, para aonde se adivinhava a cidade, e disse-me: “Esta é a minha Terra!”
Percorríamos as ruas num dia pintado de cinza...
Lancei um olhar pelas árvores... Naquela época seca, apresentavam um tom verde-seco-avermelhado.
Sem que as chuvas ainda as tivessem refrescado, notei que os seus ramos tombavam pesadamente... num sofrimento evidente, sob
o peso da poeira vermelha misturada com a poluição de uma frota de viaturas – a maioria em muito mau estado tanto físico como
mecânico - que em muito ultrapassa a capacidade da cidade que quase parou de crescer na década de 60, começo de 70 do século
passado... Luanda tem hoje mais de 4 milhões de habitantes e o seu parque automóvel ultrapassa já a cifra de 1 milhão, cujos
motoristas têm um comportamento muito distante do que pode chamar-se cívico. Cada espaço, cada cruzamento, é disputado ao
centímetro, com agressividade desafiadora! (Devo, porém, ser justa e agradecer aos poucos que, estando à espera de poder
atravessar ruas - são poucos os semáforos ou polícias-sinaleiros -, desaceleram e me convidam a atravessá-las, ou, se já é
noite, fazem sinal de luzes. Um exemplo-esperança...)
Na direcção oposta desenvolveu-se a sua população e a consequência desse movimento em direcções que seguem paralelas, porém
se opõem, Luanda é uma cidade degradada, suja, com problemas mil.
As ruas de Luanda são também cemitério de carros abandonados = ferrugem e outros elementos poluidores!, e em tudo é visível
o tom avermelhado da terra.
Indaguei-me: “Terá Luanda um passeio intacto?”
Não…
A meio buracos sem conta, adivinha-se o cimento ou as placas que outrora proporcionavam conforto aos transeuntes.
A terra vermelha ganhou o espaço que tinha perdido… invade e cobre tudo, entranha-se em todo o lado!
Caminhar nos seus passeios, nestes tempos, é um exercício de habilidade e destreza.
As inúmeras referências vindas do passado impõem-se por vezes, contrariando a decisão de não “cozinhá-las”...
Cantarolei mentalmente “Sampa”, a canção de Caetano Veloso, e com a qual me identifiquei quando cheguei a São Paulo:
“Luanda está o avesso, do avesso, do avesso, do
avesso!”
Mas... o que diz a canção? Antes?
Adapto a letra à realidade que vivo:
“… foste (e és ainda!) um difícil (re-)começo, afasto o que não conheço! E quem vem de outro sonho
feliz de cidade aprende depressa a chamar-te realidade”.
Vejo “o povo oprimido (oprimido, sim!) nas filas, comprimido nos “azulinhos” (kandongueiros), os táxis-Kombi, não
legalizados perante a Lei... são milhares cruzando a cidade em todos os sentidos, nas vilas, nos muceques...;
Vejo os mutilados de guerra pedindo nos cruzamentos...;
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