Feliz Dipanda!
Página 3 de 4
Vejo os meninos e meninas-quase-crianças transformados em vendedores ambulantes (“Cuidado”, dizem-me. “podem
assaltar-te!”). Vejo os seus rostos sérios, por entre a multidão de carros que soltam fumo intoxicante, de pé horas
a fio, no calor sufocante do alcatrão, mostrando a sua mercadoria de gosto duvidoso, e o meu carinho e respeito vão para
eles...;
Vejo as quitandeiras (kitandeiras)… “Amiga, quer banana, ananás? ‘Tá doce!”...;
Vejo as cambistas (kinguilas), à porta do supermercado, trocando dólares por Kwanzas, fazendo o seu negócio com rapidez impressionante
(aí, sim!, é preciso toda a atenção!) e depois irem ao Banco, ali mesmo, e voltar a trocar as moedas, daí retirando o seu
lucro...;
Vejo, enfim, uma população que, numa larga percentagem, trabalha ilegalmente, mas fá-lo porque não consegue outro meio de
subsistência. E assim luta.;
Vejo os metidos-a-espertos tentando, como me disseram uma vez, “dar nó em fio de água”...;
Quase não vejo velhos... são tão raros! Aos poucos com que me cruzo, não resisto, e saúdo-os com um sorriso aberto… e
recebo outro igual...”
Absorvo informações, volto a lugares meus conhecidos... lá estão os fantasmas do passado...
Começo a tomar consciência das mudanças que estão a ter lugar... para melhor... a intenção é essa,
apesar de tantos e de todos os pesares…...
“a força da grana que ergue e destrói coisas belas”…
Tenta-se agora reconstruir.
O esforço é enorme, requer patriotismo, cidadania, e muita força de vontade.
E agilidade: o tempo urge e o país é um gigante quase adormecido.
Requer, também, beber referências.
Cheguei há quatro meses.
Observo as obras que estão sendo levadas a cabo e penso:
“Não são 20, mas 10… daqui a 10 anos, se Deus quiser, e se tiverem
juízo, Luanda poderá estar diferente. Para melhor.”
“Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas, eu vejo surgir teus poetas, de campos e espaços, tuas oficinas de
florestas, teus deuses da chuva.”…
As primeiras chuvas começaram a cair em meados de Setembro.
As árvores estão mais verdes.
Florescem as acácias rubras, as neias (pitta clobium), os raros jacarandás…
As velhas, enormes e frondosas mulembas, para se evitarem acidentes quando as chuvas caírem fortes, foram podadas, e já a
sua copa se mostra forte e verdejante...
| [ Anterior ] |
| [ Próxima ] |
| [ Crónicas ] [ Página Principal ] |