Educação Tradicional em Angola

Educação Tradicional em Angola
por Américo Correia de Oliveira

(E.S. Educação de Leiria - Instituto Camões - Universidade Agostinho Neto)




in Jornal “A Página da Educação” (http://www.apagina.pt/)


“O que ensina a companhia é superior ao que ensina a escola.”
(provérbio ambundo, Matta. 1891:121)



Primeira Parte

Ano 8, nº 85, Novembro 1999, p. 21
in Jornal “A Página da Educação”


No debate sobre as finalidades da literatura de tradição oral não há contendor que olvide — e até que não privilegie — o papel educacional da mesma, sem esquecer os, sempre repetidos, objectivos lúdicos e catárticos.

Natural será, por isso, que haja uma congruência quase total entre os princípios da educação tradicional — não existe qualquer “tratado escrito” angolano de educação tradicional infantil — e aqueles que a literatura de tradição oral veicula.

A educação da criança na literatura angolana de tradição oral poderá ser abordada segundo alguns vectores educacionais: agentes; áreas de incidência; parâmetros; expectativas; dificuldades; vantagens; procedimentos. Talvez seja interessante explicitar esses vectores, registando alguns exemplos patentes nas “formas simples de texto”, nomeadamente provérbios, adivinhas e canções. Embora o universo educacional da narrativa tradicional não difira muito do daquelas formas de texto, a extensão da narrativa não permite a sua exploração exemplificativa. Os agentes educativos que intervêm nas “formas simples de texto” são os seguintes, por ordem de frequência:

As áreas sobre que incide a educação são, por ordem de frequência:

Os parâmetros educacionais:

As expectativas educacionais goradas: “Foi guerra (contra nós) que alimentámos; são salteadores os filhos que gerámos.” (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:242).

As dificuldades com que se depara o educador: “As cobras não ficam juntas na mesma caverna: educar crianças é obra difícil.” (provérbio ambó, Mittelberger, 1991:147).

As vantagens duma boa educação dos filhos: “Se educas bem o teu filho, serás rico.” (provérbio ovimbundo, Valente, 1964:70).

Os procedimentos educacionais:

O papel educacional do tio, tão marcante nas sociedades matrilineares, — se bem que o pai não deixe “de ter grande interferência na educação dos filhos”, nomeadamente nos Nhanecas-Humbes (Estermann, 1960:116) — é objecto, nas narrativas, de um quase total olvido.

Sinal de novos tempos, ou os contadores a ignorarem o que detesta(r)em?...

Ramiro Monteiro (1994:119-120) escreve, referindo-se ao período anterior à independência: “Tal como noutras regiões de Angola, os pais [na comunidade etnolinguística ambó] estavam assumindo papel cada vez mais importante na educação dos filhos. [...] Neste aspecto, a transferência de tal responsabilidade dos tios maternos (pais sociais) para os pais biológicos estava a processar-se praticamente sem tensões. Compreende-se, de resto, que os tios maternos não manifestassem grande resistência, em virtude de a educação dos filhos, com as exigências da escolarização, acarretar encargos financeiros.”


Bibliografia referenciada
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Inserção em 2 de Julho de 2006.

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