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(E.S. Educação de Leiria - Instituto Camões - Universidade Agostinho Neto) in Jornal “A Página da Educação” (http://www.apagina.pt/) |
No debate sobre as finalidades da literatura de tradição oral não há contendor que olvide — e
até que não privilegie — o papel educacional da mesma, sem esquecer os, sempre repetidos,
objectivos lúdicos e catárticos.
Natural será, por isso, que haja uma congruência quase total entre os princípios da educação
tradicional — não existe qualquer “tratado escrito” angolano de educação tradicional infantil —
e aqueles que a literatura de tradição oral veicula.
A educação da criança na literatura angolana de tradição oral poderá ser abordada segundo alguns
vectores educacionais: agentes; áreas de incidência; parâmetros; expectativas; dificuldades;
vantagens; procedimentos. Talvez seja interessante explicitar esses vectores, registando alguns
exemplos patentes nas “formas simples de texto”, nomeadamente provérbios, adivinhas e canções.
Embora o universo educacional da narrativa tradicional não difira muito do daquelas formas de
texto, a extensão da narrativa não permite a sua exploração exemplificativa.
Os agentes educativos que intervêm nas “formas simples de texto” são os seguintes, por ordem de
frequência:
a mãe: “Quem muito pergunta não come
veneno, viagem (feita) com a mãe não escapa da memória.” (provérbio nhaneca-humbe, Silva,
1989:297);
os pais: “O merdeiro não é parvo: é
negócio que os pais fizeram.” (provérbio ambundo, Ribas, 1979:197);
o pai: “O que cresce por fora no
tubérculo já estava lá dentro: se teu pai que te gerou tem maus costumes, tu também os terás.”
(provérbio ambó, Mittelberger, 1991:168);
os velhos: “Esteve a chover e a dar
sol. /Fomos interrogar os velhos./Os velhos disseram: ´Não tem importância./-´Muito bem!...
Muito bem!...” (canção nhaneca-humbe, Silva, 1966:107);
e, por último, os avós, os irmãos e a
escola.
a aprendizagem da obediência (veja-se
provérbio português: “Menino, e moço, antes manso, que formoso”, in Rolland, 1841:75): “A
criança deve ser obediente ou atoleimada para poder comer com os mais velhos.” (provérbio
ambundo, Ribas, 1979:138);
a generosidade: “Criança, deves dar,
não digas que a tua mãe e teu pai já haviam dado.” (provérbio ambundo, Matta, 1891:31);
o cuidado a ter na linguagem: “Ó filho,
não digas insultos, a gazelita da chana (planície alagável) vê-te.” (provérbio ovimbundo,
Valente, 1964:125);
por último, a hospitalidade, e a
proibição do furto.
atempação: “Pau não endireitado,
enquanto verde, já não pode sê-lo depois de seco; a criança não ensinada em pequena, quando
crescida, não te obedece.” (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:240); “O feitiço que com a
infância bebi, com ele irei a enterrar.” (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:241); “P -
Saltando e saltando na rocha (que é)?/R - É o filho da gazela que aprende a saltar.” (adivinha
ovimbunda, Alves, 1951, II:1525);
importância da companhia: “O que ensina
a companhia é superior ao que ensina a escola.” (provérbio ambundo, Matta, 1891:121). “O rio,
porque andou só, está torto; se tivesse andado com gente, não entortaria.” (provérbio
nhaneca-humbe, Silva, 1989:267)
As expectativas educacionais goradas: “Foi guerra (contra nós) que alimentámos; são salteadores
os filhos que gerámos.” (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:242).
As dificuldades com que se depara o educador: “As cobras não ficam juntas na mesma caverna:
educar crianças é obra difícil.” (provérbio ambó, Mittelberger, 1991:147).
As vantagens duma boa educação dos filhos: “Se educas bem o teu filho, serás rico.” (provérbio
ovimbundo, Valente, 1964:70).
Os procedimentos educacionais:
moderação: “Onde há riso, há chupeta;
onde há sobrecenho carregado, há proibição.” (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:332); “Se ao
miúdo tiras a faca (aguçada), dá-lhe outra embotada (não ser radical e brusco na educação das
crianças)”; (provérbio ovimbundo, Alves, 1951, I:675);
discrição: “Se censuras o teu filho, é
melhor dentro de casa.”; (provérbio ovimbundo, Castro, 1948:44). O padre Valente (1964:126),
corroborado por outros angolanistas, afirma que “em geral a mãe bundo curva-se à vontade, ao
capricho do filho, e tem como falta o castigá-lo quando merece.” ;
prémio e castigo: “(Ora) favor, (ora)
croque na cabeça.” (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:11); “Quando uma criança chora para se
lhe dar uma faca, deve-se lhe dar; em se ferindo, já não torna a pedi-la.” (provérbio ambundo,
Matta, 1891:107);
características necessárias a um
educador: “A ser muito doce, vêm os miúdos a deitar-te as mãos à careca.” (provérbio
nhaneca-humbe, Silva, 1989:338); “Quem ensina a andar a uma criança não se deve apressar (ou
desesperar).” (provérbio ambundo, Matta, 1891:82).
O papel educacional do tio, tão marcante nas sociedades matrilineares, — se bem que o pai não
deixe “de ter grande interferência na educação dos filhos”, nomeadamente nos Nhanecas-Humbes
(Estermann, 1960:116) — é objecto, nas narrativas, de um quase total olvido.
Sinal de novos tempos, ou os contadores a ignorarem o que detesta(r)em?...
Ramiro Monteiro (1994:119-120) escreve, referindo-se ao período anterior à independência: “Tal
como noutras regiões de Angola, os pais [na comunidade etnolinguística ambó] estavam assumindo
papel cada vez mais importante na educação dos filhos. [...] Neste aspecto, a transferência de
tal responsabilidade dos tios maternos (pais sociais) para os pais biológicos estava a
processar-se praticamente sem tensões. Compreende-se, de resto, que os tios maternos não
manifestassem grande resistência, em virtude de a educação dos filhos, com as exigências da
escolarização, acarretar encargos financeiros.”
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