Educação Tradicional em Angola
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Os traços fundamentais que parecem sobressair do “sistema educacional” tradicional angolano não
chegam a constituir essa é a opinião expressa por alguns dos angolanistas, como Ferreira Diniz
(1918:570) um verdadeiro “sistema educativo”, se bem que seja de destacar a importância da
educação moral e o papel educacional desempenhado pelos ritos de puberdade. A responsabilidade
pela criação, acompanhamento e educação da criança de ambos os sexos pertence à mãe, até aos 6-7
anos, grosso modo, data a partir da qual os rapazes passam para a alçada do pai ou do tio
materno e a rapariga para a da mãe (Redinha, 1953:65; Milheiros, 1967:280; Tavares, 1968:65;
Lima, 1989, vol. II:112-113). Do desmame até aos 5-7 anos, a criança, como afirmam alguns dos
autores atrás citados, é, por vezes, entregue a outros familiares, como a avós, tios, irmãs, ou
até conhecidos, mas sempre sob a vigilância da mãe. A realidade não é diferente em toda a
“África Banta”, como no-lo afirmam Thomas e Luneau (1975:39).
A educação é, essencialmente, feita à base do exemplo, sendo raro o castigo, de acordo com os
etnó(grafos)logos, realidade que, amiudadamente, a literatura de tradição oral contradiz. Além
da educação geral, a escola da vida, existe uma educação especial para determinados cargos:
chefes, médicos tradicionais, etc. Corroborando Henrique de Carvalho (1890:351-356), Ferreira
Diniz (1918:571), refere que, para “determinadas classes e cargos ou profissões”, há uma
educação especial que não tem nada a ver com a iniciação recebida “ao chegar à idade adulta”,
e que concerne aos “que por hereditariedade tenham de vir a exercer autoridade, aos que desejem
ou mostrem aptidões para curandeiros, e aos que tendam para a magia e desejem praticar para
adivinhos”.
A diferenciação dos papéis (a actual problemática do “género”) é feita logo à nascença, embora
a sua distinção completa só se efectue nos ritos de puberdade, sendo temporária e
exacerbadamente invertida nalguns grupos, como entre os Ambós, através de fenómenos de
“travestismo” nos jovens dos dois sexos, na fase dos ritos: — a despedida carnavalesca do
diferente, condenado a permanecer, doravante, inalterável...
Aliás, as actividades infantis predominantes são as lúdicas, mesmo que se revelem de interesse
para a economia familiar (caça pequena, recolha de frutos, pastoreio, ordenha, etc...), sendo,
desde muito cedo, diferenciadas quanto ao sexo (nalguns grupos, como nos Lunda-Quiocos, as
crianças são logo distinguidas, à nascença), sendo, inicialmente, a responsabilidade por essa
distinção das mães e das “classes de idade infantis” e, mais tarde, dos pais, tios e da própria
sociedade. Não é, por isso, de bom tom realizar tarefas que correspondam a pessoas do sexo
oposto.
A teia de relações entre irmãos e companheiros da mesma idade ou mais velhos constituem a
“escola da vida”, onde se aprendem as “regras de jogo” das hierarquias etárias e da lei do mais
forte. Talvez, por isso, seja tão apetecido ter um irmão a quem “carregar” ou a/em quem mandar,
ou um companheiro com quem “aprender”.
A quase ausência de castigos é destacada por vários autores em relação à generalidade das
crianças angolanas e africanas José Valente (1973:159-160) destaca a quase ausência de castigos
que caracteriza a educação da criança ovimbunda: “a criança bundo não se castiga; quando muito,
chama-se-lhe a atenção para uma falta, admoesta-se e educa-se por palavras. E, quando um dos
cônjuges levanta a mão para um filho, pode originar motivo de separação doméstica!”. Óscar Ribas
(1964:52) afirma genericamente: “Não gosta o nativo [angolano] de bater nos filhos. Sobretudo
esbofeteando”. Pereira Neto (1963:55) é da mesma opinião, ao abordar a educação dos Cuanhamas:
“As crianças integram-se, desta maneira, no meio e a sua vida identifica-se facilmente com a dos
pais, por meio do exemplo e da persuasão. Raros são os castigos e os prémios”. Idêntica é a
posição de Viegas Guerreiro (1968:214), em relação aos “Bochimanes”: "Nunca vi bater nos filhos:
uma palmada nas mãos e foi tudo.”. Em relação à educação das crianças moçambicanas, macondes,
Jorge e Margot Dias (1970, III vol.:155). emitem a mesma opinião : “As mães não costumam usar
castigos corporais, nem fazer promessas, tão correntes nas sociedades industrializadas, e que
criam nas crianças um espírito ganancioso e interesseiro.”. Referindo-se às crianças africanas
negras, Erny (1968:75) afirma que a criança africana é educada durante longos anos num clima de
indulgência total e geral, não submetida a qualquer constrangimento.”.
À guisa de conclusão, poderemos afirmar que todos os etnó(antropó)logos angolanistas são
unânimes em destacar a grande liberdade de que goza a pequenada, das brincadeiras em grupo,
às vezes ensaiando os futuros papéis, enfim, que os castigos, quando os há, não passam de
admoestações. Os ritos de puberdade e a fase de adulto alterarão radicalmente este estado de
coisas.
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