Educação Tradicional em Angola
Página 3 de 3
Ao dar por encerrado, se bem que provisoriamente, o debate sobre a educação tradicional em
Angola, depara-se-nos a velha questão: será que há grandes diferenças entre o “sistema
educacional” expresso na literatura etnológ(gráf)ica e aquele que transparece na literatura
de tradição oral?
Tudo leva a crer que a educação “edénica”, sem castigos e feita de admoestações, que colhe a
unanimidade da maioria dos etnólog(graf)os angolanistas, não parece ter correspondência na
literatura de tradição oral: o “castigo”, lato sensu, é duro e abusivo por parte,
essencialmente, do pai face à desobediência filial ou ao abuso, de acordo com o que algumas
narrativas descrevem; mas, também, a defesa intransigente e o castigo mortal das “mães sociais”
prepotentes e/ou assassinas é uma constante.
Nas narrativas, as tarefas, desempenhadas pelas crianças de diferentes sexos que acompanham os
pais, a partir de certa idade, não deixam qualquer margem de dúvida em relação à diferenciação
dos respectivos papéis, indo ao ponto de se denominar o rapaz de “Julga-Questões” e a rapariga
de “Pisa-Farelo” ou “Faz-Pirão” (narrativas lundas-quiocas, Barbosa, 1990:107-112). Nas formas
de texto da tradição oral angolana são referidas como desempenhadas por crianças do sexo
feminino as seguintes actividades: apanha de conchas; arranque de raízes para cestos; pilar;
cavar para encontrar larvas; ajuda da mãe nas lides domésticas; acarretar (água e lenha); sendo
mencionadas como tarefas desempenhadas por crianças do sexo masculino actividades de: pastoreio,
caça (e acompanhamento); apanha de ratos comestíveis; recolha de mel; ordenha (numa narrativa,
um filho de “rei” nhaneca-humbe realiza a tarefa da ordenha, talvez, porque, neste grupo
etnolinguístico, a criação de gado é da máxima importância). A inversão do desempenho de
tarefas, tradicionalmente desempenhadas por pessoas de sexo feminino, poderá ser tão grave,
pelo menos no domínio ficcional, que ocasiona, numa das narrativas nhanecas-humbes, a morte
do infractor, o “Homem Sapo-Concho” (o João Ratão das narrativas populares portuguesas).
Mas é no campo da “responsabilidade educacional” que parece haver maior coincidência entre os
etnólogos e etnoliteratos angolanos: qualquer falha (ferimento, desaparecimento ou morte casuais
do filho acompanhante) recai sempre sobre a mãe, sempre castigada com a morte. … o preço a pagar
pela responsável desta díade indissociável, que forma uma unidade de sentimentos recíprocos tão
forte que a “mãe de filhos pequenos” é como “lacrau com crias” (motejo ambundo, Ribas, 1962:127).
Na literatura de tradição oral, aparece um único caso de um “educador infantil” da petizada da
aldeia, um idoso, que acaba por ser responsabilizado (pagamento de uma indemnização pesadíssima
que o deixa na miséria, acrescido da culpabilização da aldeia, a que o idoso não resiste,
suicidando-se) pela morte acidental de uma das crianças (deglutição mortal de uma espinha).
Aliás, as consequências desastrosas dos actos infantis são quase sempre suportadas pelos pais
ou “mais-velhos”, sendo estes que transmitirão a “herança” que os futuros herdeiros deverão
respeitar, porque sempre prestimosa, mesmo que não o aparente. O lugar indiscutível que ocupam
os “mais-velhos” no “ranking” social é atestado pela maioria dos africanistas, sendo explicada,
por Louis-Vincent Thomas (1991:389), pela raridade das pessoas idosas, primado da filiação sobre
a aliança, e o papel fundamental da oralidade, único meio de transmitir o saber que reproduz o
grupo. Deste modo, as relações entre a criança e os adultos, incluindo os chefes, são de
respeito, distanciamento e diferenciação.
A “virtude”, que é considerada prioritária, na literatura de tradição oral, e consequentemente
valorizada, é, sem qualquer margem de dúvida, a obediência (e submissão) que também é descrita
como exemplar na vida real, por Valente (1973), Viegas Guerreiro (1968) e Ferreira Diniz (1918),
entre outros. Valorizam-se, como é natural nas sociedades tradicionais, transparecendo na
literatura de tradição oral, as “boas maneiras” ou a “educação”, em geral: a gratidão, a
generosidade e a hospitalidade; modos de apresentação, de estar e de tratamento. Milheiros
(1967:249) escreve que “não é de bom tom, entre eles, que as crianças, ao avistarem uma pessoa
respeitável, se aproximem muito. Devem fugir, ou, pelo menos, afastar-se até a uma distância
respeitável, isto em quase todas as etnias. Incutem às crianças, logo de pequenas, o que eles
chamam uoma (medo) pelos superiores. … o que nós chamamos, à frente, o medo respeitoso. Sempre
que alguém a quem devam respeito se aproxime de uma criança, esta deve afastar-se imediatamente
e, se chamada por esse alguém, quando se aproximar, não deve levantar os olhos do chão, porque,
se fixar essa pessoa de frente, incorre em gravíssima falta de respeito.” Também, o furto, nas
narrativas tradicionais, é severamente punido pela comunidade, sempre com a morte; excepção
aberta para o saque dos bens dos ogros, considerado uma façanha digna do maior apreço.
Os “timings” educacionais são extremamente radicais, como vimos, devendo a educação ser
atempada (“de pequenino se torce o pepino”, dizem os portugueses), os angolanos utilizam
a metáfora da árvore (“pau”):
O pau endireita-se enquanto é pequenino. [provérbio lunda-quioco, (Martins, 1951:183; Barbosa,
1984:153) e ambó (Mittelberger, 1991:168)].
Pau não endireitado, enquanto verde, já não pode sê-lo depois de seco; a criança não ensinada
em pequena, quando crescida, não te obedece. (provérbio nhaneca-humbe, Silva, 1989:240).
O contexto educacional, fortemente comunitário e alicerçado em “classes de idade” das sociedades
tradicionais, vai realçar a importância, na educação infantil, do parâmetro da “companhia”,
colocando esta acima da própria escola:
”O que ensina a companhia é superior ao que ensina a escola.” (provérbio ambundo
(Chatelain:1888/1889:138; Matta, 1891:121)).
Em jeito de conclusão, será de todo o interesse referir que as tarefas “duras” e “impossíveis”,
atribuídas às crianças na literatura de tradição oral, não figuram nos textos etno(gráficos)
lógicos.
Qual a objectividade dos dois “géneros de literatura”, ou que desígnios ideológicos encobrem
descrições tão edénicas da infância tradicional angolana, elaboradas pelos etnó(grafos)logos
angolanistas?...
| [ Anterior ] [ Página Principal ] [ Encontro com a Escrita ] |