Flamingos

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Pois os nossos flamingos tinham-se de tal modo habituado a toda aquela azáfama que, se o comboio apitasse, alguma viatura buzinasse ou fizesse qualquer outro barulho, o máximo que eles faziam era retirar a cabeça da água, verificar o que tinha acontecido, e imediatamente regressavam à sua incessante tarefa de, com a cabeça dentro da água, procurar os microorganismos de que necessitavam para a sua alimentação.

O avanço do chamado desenvolvimento tem, muitas vezes, um preço muito alto, e, neste caso, decidiu-se, a páginas tantas, que aquele mangal deveria ser aterrado. Perdemos, assim, a companhia dos flamingos que nos viam partir em direcção a Benguela e nos davam as boas-vindas quando de lá voltávamos.

O meu Pai, conhecedor destas coisas da Mãe-Natureza, terá sido aquele que nos fez olhar para o céu e apreciar as aves que por lá passeiam. Mesmo à noite, se ouvia o grasnar dos patos e outras aves, ele imediatamente nos dizia: "São os ..." (e lá dizia o nome das aves), "a caminho de ..." (e dependendo da época do ano, informava-nos da direcção que seguiam, se para o Norte ou para o Sul, no constante movimento de migrações, seguindo o instinto com que o Deus-Pai os tinha criado e que eles seguiam rigorosamente, estação após estação, ano após ano...).

Apreciar os flamingos não era, portanto, uma excepção. Ao entardecer, sempre que podíamos, entrávamos para o carro e íamos para os locais onde poderíamos observar a sua chegada. E lá vinham eles, no tradicional voo em formato de "V", que se desfazia a partir do momento em que o líder começava a procurar o local ideal para pernoitar. A partir daí, sobrevoavam a cidade em círculos que se iam afunilando, cada vez mais baixos, logo que a escolha tivesse sido feita.

Nessa altura, era-nos possível prever onde iriam aterrar... E novamente pegávamos no carro e também nós voávamos (dentro do que a lei permitia...) para o local escolhido, para apreciarmos o espectáculo do bando a aterrar...

Era um bater de asas, de tentar o melhor poiso... às vezes conseguido não muito pacificamente... Finalmente, o bando acomodava-se... silenciava... a noite ia tomando conta do dia...

Entrávamos no carro. Já não tínhamos pressa. A caminho de casa, saboreávamos os momentos mágicos que tínhamos acabado de viver.


Foto obtida no site NamibWeb.com
(v. História da Família - Mapa das Origens - Namíbia)


Para mais informações sobre os flamingos, clicar em flamingo (Encyclopedia.com) e também em Naturlink.

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