Angola na Encruzilhada do Futuro
in “Semanário Angolense”, Luanda, Angola,
Suplemento de 05 a 12 de Junho de 2004, Página 15.
Texto de Lucas Adão, Lisboa.
O país foi discutido em Lisboa, num colóquio promovido pela fundação Mário Soares, com apoio do
“Open Society”. Houve, no entanto, quem tivesse visto isso como uma intromissão nos “assuntos
internos” de Angola...
O futuro de Angola foi a razão de um colóquio que a Fundação Mário Soares, com apoio da “Open
Society”, resolveu organizar em Lisboa na semana passada. Em debate estiveram assuntos
económicos, sociais e, sobretudo, políticos. O grosso de participantes para a provocação das
discussões saiu expressamente de Luanda.
Embora algumas vozes se tivessem levantado para contestar o facto de se levar à discussão de
problemas nossos num fórum português, como que a carácter de intromissão de estranhos nos
“assuntos internos” do país, o colóquio, denominado “Angola na encruzilhada do futuro”, acabou
por se revelar numa tribuna importante para, de certo modo, se aferir o que é que os angolanos,
tanto os idos de Luanda, como os radicados na antiga metrópole, pensam sobre os melhores caminhos
a seguir para o desenvolvimento de Angola.
Foram dois dias de debates intensos, sobressaindo os relativos às próximas eleições gerais e à
“maka” de Cabinda, sendo a questão do enclave, com a qual se encerrou o colóquio, a mais quente
de todas. Aqui, a fazer jus aos receios dos contestatários, os portugueses acabaram por deixar
que os angolanos se embrulhassem em discussões basicamente estéreis, em especial a que envolveu
o “nosso” Stephan Barros, uma figura ligada à FLEC, e uma voz marcadamente de aluguer que o
partido da situação colocara em campo para defender os seus interesses, tal como já anunciáramos
no nosso primeiro despacho sobre o colóquio.
Chega de “partes”
De resto, “as partes” fizeram tanta confusão, que Rafael Marques, a contragosto, teve que
encerrar o debate, quando ainda havia disposição para opinar sem barulho e muito tempo pela
frente, não fosse o diabo tecê-las. Às pressas, Mário Soares fez depois o encerramento do
evento, com um discurso no qual se pode notar um outro posicionamento em relação a Angola.
Na verdade, foi com alguma surpresa que não se ouviu do antigo presidente da República
Portuguesa as tradicionais cobras e lagartos, algumas gratuitas, diga-se contra o regime
angolano, mas um discurso conciliatório, urbano e, acima de tudo, eivado de conselhos para as
“partes” que foi possível descortinar entre os entre os participantes, sobretudo na plateia e
não propriamente entre os comunicadores convidados.
Antes disso, quatro painéis estiveram em discussão: “O processo de democratização em Angola”,
“Desenvolvimento económico e gestão do poder”, “O interior de Angola: o respeito pelos Direitos
Humanos e o acesso à informação” e, finalmente, “A questão de Cabinda”.
No primeiro painel, Ju Martins, secretário do MPLA para os Assuntos Políticos e Eleitorais,
acabou por ser o principal alvo das discussões que se seguiram às comunicações, por culpas dessa
sua condição de alto responsável do partido no poder em Angola, a quem se pretendia como o único
responsável pela protelação das segundas eleições gerais no país, que ainda não têm datas
marcadas, embora já se saiba que deverão realizar-se em 2006, a fazer fé nos sinais afins que
têm sido lançados pelo presidente da República.
Ju Martins conseguiu demostrar tim-tim por tim-tim que não era bem assim, ou seja, que a própria
oposição também tem a sua quota parte de responsabilidade na indefinição que ainda se regista,
tendo se socorrido de propostas documentadas da UNITA já feitas a propósito para sustentar as
suas argumentações.
O escritor e jornalista José Eduardo Agualusa, o único que não trouxe uma comunicação já
preparada, tendo feito recurso à sua capacidade de improvisação para falar de liberdade de
expressão e arredores em Angola apenas baseado em alguns tópicos, dissertou essencialmente sobre
os avanços e recuos (ou ganhos e perdas) da comunicação social angolana, nomeadamente a dita
independente, mas certo de que se estava no bom caminho.
No capítulo da crítica, avançou os registos que detinha sobre a corrupção no sector,
referindo-se ao exemplo de um jornalista que lhe garantia que ganhava mais em não escrever que
o contrário. Como já se avançou neste jornal, Agualusa teria feito um bom serviço à nação se
apontasse o nome desse jornalista (apenas se sabe que é o director geral de um dos “pasquins”
que se publicam semanalmente em Luanda), ao invés de pretender generalizar o facto.
Cabinda, Cabinda...
Outro painel que foi muito profícuo, apesar das discussões que se seguiram às comunicações quase
terem degenerado numa “batalha campal” entre alguns independentistas e unionistas, como já vimos
acima, foi o que tratou da questão de Cabinda.
Entre os comunicadores desse painel, destaque para o engenheiro Agostinho Chicaia, presidente da
associação cívica “Mpalabanda”, que se saiu a contento ao responder à bateria de dúvidas que
lhe foram apresentadas , enquanto o Padre Raul Tati só fazia recurso ao seu direito de não
comentar ou responder às perguntas que lhe foram colocadas, nomeadamente a propósito do papel
da igreja que representava no fórum.
Outra intervenção aplaudida foi a do Rei Muatchissengue Wa Tempo, que falou sobre os problemas
dos povos lundas, que passam muito mal apesar das terras ricas que possuem, onde a extracção dos
diamantes quase nada resulta para o desenvolvimento social da região.
Como é natural, não temos condições para comentar o que se passou em todos os painéis, mas, para
que os nossos leitores possam ter uma ideia geral do que se passou, apresentamos no interior
deste suplemento o essencial das comunicações. Convém dizer que além dos conferencistas já
citados, intervieram ainda nessa condição os jornalistas João Pinto e Manuel Mwanza, os
políticos Paulino Pinto João, Filomeno Viera Lopes e Vicente Pinto de Andrade, o reverendo José
Belo Chipenda e a inglesa Sara Wyke, investigadora da Global Witness.
Ao contrário do que se pensara no início, alguns jornais acabaram por dar um certo destaque ao
evento, aproveitando a presença de algumas figuras para entrevistas sobre a cena política
angolana. Filomeno Viera Lopes, Vicente Pinto de Andrade, Padre Raul Tati, Carlos Margoso e Ju
Martins foram as personalidades a quem o “Público”, o jornal de maior circulação em Portugal,
concedeu este privilégio.
in “Semanário Angolense”, Luanda, Angola,
Suplemento de 05 a 12 de Junho de 2004, Página 16.
Rafael Marques, na Abertura.
Depois de Mário Soares, o patrono da fundação responsável pela organização do colóquio, ter dado
as boas vindas aos participantes, fazendo votos para que as coisas decorressem bem, Rafael
Marques, representante da “Open Society” em Luanda, tratou de abrir as “hostilidades”, com um
discurso muito forte contra o regime, debruçando-se essencialmente sobre a falta de liberdade
que ainda se regista no país. Para ele, a liberdade em Angola está confiscada.
Começa, no entanto, por agradecer o gesto de Mário Soares, ao promover este debate sobre Angola,
que, na sua óptica, reafirma a sua amizade e apoio aos angolanos, que lutam pela liberdade e
pela democracia. “Agradeço a sua generosidade”, sublinhou.
Mais ainda pelo facto das relações entre Angola e Portugal serem marcadas pelos chamados
interesses superiores entre estados, que, segundo Rafael Marques, são pautados por negócios mal
explicados e pelas simpatias entre governantes, às vezes com efeitos perniciosos para os
interesses dos dois povos. “O carinho deste grande estadista marca a diferença e renova as
nossas esperanças numa relação que demonstre sincera preocupação pelo desenvolvimento humano em
Angola”, referiu a propósito.
Mais adiante, como nota introdutória ao colóquio, diz que o debate para a instauração de uma
democracia real no país tem vindo a ganhar cada vez mais espaços, como evidência de uma maior
consciência nacional, fruto do momento de solidariedade, convergência e unidade de princípios
que se regista entre os partidos da oposição e no seio dos sectores da sociedade civil
interessados no processo de mudanças políticas.
O lançamento da campanha por uma Angola democrática, em Março, que envolve mais de 60
organizações políticas e cívicas, a declaração dos partidos políticos da oposição a reafirmar
a sua posição solidária para a realização das eleições em 2005 e a suspensão solidária da
participação dos partidos oposicionistas representados na comissão parlamentar que está a tratar
da futura nova constituição são sinais encorajantes e uma nova era de abordagem política no
país.
Estes sinais emitem novas esperanças no prosseguimento, pela via pacífica, da luta pela
liberdade. “Falo da libertação de ser angolano, da restauração da sua honra e dignidade - há
muito perdidas entre interesses externos, batalhas e traições entre irmãos”, enfatizou o cívico
no seu discurso.
Segundo Rafael Marques, desde 1992 que os promotores do “homem novo” acabaram por se revelar, em
toda a sua dimensão, como clones mal formados do colonialismo, tendo começado a privatização do
Estado, a favor de algumas poucas famílias, descritas no escândalo Angolagate como “famílias
reinantes”. O passo seguinte passou a ser o regresso gradual a formas sub-humanas de
sobrevivência da esmagadora maioria dos angolanos.
Dez anos depois do advento daquela paz podre que se havia conseguido, a morte de Jonas Savimbi
resultou na chegada de uma outra era de pacificação. Mas para o representante da “Open Society”
em Angola, é uma paz sem liberdade, nem democracia. “Atiram-nos restos de mentiras, comidas e
prazeres para nos manterem submissos e aparentemente satisfeitos”, lamenta.
Rafael Marques considerou no seu discurso que só há alguma liberdade em Luanda, por sinal como
resultado da exclusão do resto do país, onde há uma desvalorização gritante dos usos e costumes
dos povos do interior, no âmbito de um processo macabro que visa o aniquilamento do “eu
angolano”, do direito à diferença etnolinguística, cultural e social.
Disse que a liberdade de que fala é aquela em que os cidadãos não tenham que se sentir
inferiores aos estrangeiros na sua própria terra, por falta de acesso aos esquemas
político-sociais capazes de lhe conferir educação, saúde, estatuto e o bem-estar como
privilégios.
Passou depois a “tratar” José Eduardo dos Santos, a quem acusa de desprezar e faltar respeito
ao povo de Angola, manifestando antes grande indignação por testemunhar o reforço do seu poder
pessoal na condução dos assuntos do Estado Angolano.
“Temos um presidente de Angola em busca de um poder externo que o proteja. O franco-brasileiro
Pierre Falcone, elevado a herói nacional pelo presidente, já não está em condições de salvar a
pátria e procura apenas salvar-se a si próprio, da justiça francesa e da Interpol. Antes de
Falcone, o poder também precisou dos soviéticos, cubanos e outros dispostos a ganhar com a
tragédia de Angola”, disse a dado passo dos seus “ataques” a José Eduardo dos Santos, a quem
ainda acusa de ser cínico e arrogante, sobretudo a propósito dos comentários desabonatórios
que o chefe de Estado fez sobre os jornalistas que laboram na imprensa privada.
Manifestando-se preocupado com a liberdade de escolha que os angolanos têm de ter para
proporcionar um futuro melhor às novas gerações, falou de novos capítulos para a história
de Angola que não sejam o derramamento de sangue e roubos, mas sim que registem a evolução,
o desenvolvimento dos cidadãos nacionais.
Reconhece que o MPLA tem tradições nobres da luta pela independência, pelo que considera que os
quadros patriotas e honestos que esse partido ainda possuem e devem ser capazes de honrar essas
mesmas tradições.
A rematar, garantiu que, como angolano, contribuirá, sem reservas, para transformar em
realidade o sonho da liberdade para Angola e para todos os angolanos.
Mário Sores oferece jantar
Um jantar de gala na sede da sua fundação, segunda-feira da semana passada, foi o que Mário
Soares julgou ideal para salvar os angolanos que se haviam deslocado a Lisboa a propósito do
colóquio, entre políticos, activistas cívicos e jornalistas.
Além destes, estiveram presentes algumas figuras importantes da sociedade portuguesa e angolanos
radicados em Portugal, alguns dos quais ligados á UNITA, como o Dr. Azevedo Kanganje, num total
de 30 e tal pessoas. Entre os portugueses, destaque para D. Duarte de Bragança, o herdeiro da
coroa lusa, José Ribeiro e Castro (eurodeputado), Comandante Homem de Gouveia (antigo assessor
de Mário Soares), Miguel Anacoreta e Dias (deputado), bem como para as nossas amigas Maria João
Sande Lemos e Margarida de Lima Mayer, activistas cívicas a favor do futuro de Angola.
Distribuídos estrategicamente por quatro mesas, os convidados trocaram animadas impressões sobre
a vida dos dois países, ao sabor da gastronomia típica portuguesas (só foi um prato á base de
batatas e carne) e bons vinhaços lusitanos, tudo numa boa.
Ainda que isso doa, diríamos que só não gostamos da manifestação de um excessivo servilismo
demonstrado pela figura que tratou de agradecer o gesto hospitaleiro do antigo presidente
português. Era assim como se padecesse de algum complexo de colonizado, como eu o chamo. Não era
preciso tanto, reverendíssimo, como aquela de que os americanos comem com as mãos e que os
angolanos, por terem sido, “felizmente”, colonizados pelos portugueses, o fazem com garfo e
faca. Que barbaridade...
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