Aventura no Giraúl
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O que vou relatar aconteceu quando eu tinha pouco mais de um ano. É claro que não me vejo no
desenrolar dos acontecimentos mas, pelo que de aventureiro, perigoso, irresponsável, até, teve,
foi uma história muito comentada e relatada no seio da família. Motivo de riso e também de alívio
porque acabou bem... Era ainda criança que tomei conhecimento do sucedido.
Antes de mais, gostaria de recordar o Giraúl.
Muitos locais, muitos caminhos na região de Moçâmedes estão esbatidos na minha memória. Mas há
alguns que não esqueço. Um deles é o Giraúl... que não é só o rio....
Para mim, o Giraúl é também tudo o que o ladeia, ou melhor, o que circunda o rio. Recordo-me que,
vindos de Moçâmedes, a proximidade do Rio Giraúl era assinalada por bastante vegetação que ia até
à sua beira.
Recorde-se aqui que, tal como muitos rios de Angola, este também tem o seu leito seco. Mas,
quando chega a época das cheias, todo o cuidado é pouco para atravessá-lo. As cheias são
traiçoeiras, não mandam aviso. Tem-se uma noção de quando elas virão, mas nada se pode prever
com precisão. A única coisa que é preciso é prestar muito cuidado e não nos arriscarmos.
Por outro lado, se quisermos ver um dos belos espectáculos da natureza, é termos a felicidade de
poder estar no local certo, na hora exacta. No caso das cheias, é estar lá, à beira dum rio
qualquer, de leito seco, que de repente começa a receber, de muitas chuvas que caíram a montante,
um imenso caudal de água barrenta, com ondas enormes que avançam a grande velocidade, lambendo
gulosamente as suas margens e levando dessa maneira arbustos menos resistentes, árvores
debilitadas. É um acontecimento que jamais se esquece!
Mas atenção!: para se assistir a essa vigorosa manifestação da natureza, devemos permanecer num
local seguro... a partir duma elevação próxima... enfim!, onde não corramos o risco de
acompanharmos os arbustos, as árvores arrastadas pela força das águas... Nunca a partir
dum local dentro do rio...
Mas... quanto ao Giraúl... Uma vez atravessado o leito do rio, logo à frente, guina-se à esquerda
e começa-se a subir... Subir, naqueles tempos da minha infância, não é absolutamente o que se
pode imaginar nos dias de hoje. Os carros tinham pouca potência e a subida é íngreme! A estrada
era de terra batida e só anos mais tarde foi construída a que ainda lá está... Se, por isso, se
demorava mais tempo, tínhamos, por outro lado, a oportunidade de apreciar a bela paisagem que
nos era oferecida.
É quando chegamos ao topo dessa subida e olhamos à direita, para baixo, que nos apercebemos da
sublime beleza do lugar: lá está a lagoa que, na época certa, fica repleta de nenúfares!...
Atrás dela, um morro alto que lhe empresta sombra... Um regalo para os olhos... um verdadeiro
bálsamo para a alma!
E foi assim que, desde pequena e uma vez que tomei consciência da beleza paisagística daquele
lugar, procedi todas as vezes que chegávamos ao fim da subida: sem mais pensar, olhava para a
direita e para baixo... Ainda hoje, em espírito, transporto-me até àquele local paradisíaco,
esquadrinhando a lagoa... numa rotação continuada de 360 graus... revivendo o fascínio que
exerceu na minha infância...
Recentemente, a moçamedense Reginalda Almeida, que me descobriu quando fez uma pesquisa mundial
de Moçâmedes, enviou-me, entre outras, 3 fotos do Giraúl (estão presentemente no "Álbum de
Angola"), tiradas recentemente por uma pessoa sua amiga. Uma, nem ela nem eu conseguimos
identificar a sua correcta localização. Todavia, não hesitei em identificar correctamente as outras
duas. A última vez que passei por aquele local teria 10, no máximo 11 anos...
Pois bem..., foi nesse local que, era eu criança de colo, teve lugar uma aventura de que foram
protagonistas os meus Pais e eu.
Tínhamos ida ao Lubango. Quando os meus Pais se preparavam para regressar, o meu Pai foi
avisado de que não deveria passar pelo Giraúl porque o rio tinha água e havia ameaça de cheia.
Lembram-se do que disse sobre a característica do meu Pai... "quanto mais difícil e perigoso,
melhor"??? É claro que ele se pôs à estrada, em direcção ao Giraúl... e nós por passageiras...
Quero também falar do automóvel do meu Pai, para que compreendam alguns pormenores do que depois
aconteceu. Era um Ford V8. Mais tarde, dei-lhe o nome de "Pampas" e assim era conhecido entre
os íntimos...
Já viram, também, que o supérfluo é coisa que o meu Pai também não levava em linha de conta...
O "Pampas" só tinha o que era indispensável. O meu Pai retirou-lhe todas as peças que considerou
desnecessárias: portas, os guarda-lamas não me recordo, mas não me admiraria :)). Quanto ao
pára-brisas do V8, sei hoje, Novembro de 2003, que descia para o "capot", aonde se
aninhava, como me esclareceu o meu primo Fernandino Brunido. Recordo-me, porém que os
objectos de primeira necessidade, como os cantis com água, ficavam pendurados nalgum
acessório do carro, de que não mais me recordo. Estavam, assim, à mão de semear...
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