Aventura no Giraúl
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Voltando à viagem... Conforme fomos avançando em direcção a Moçâmedes, o meu Pai foi parando
sempre que via alguém e indagava da situação do rio. Foi-lhe sempre dito a mesma coisa: meteu
água... havia ameaça de cheia...
E continuou em direcção ao Giraúl...
Chegados lá, já no fim da tarde, ele constatou in loco aquilo de que tinha sido várias
vezes avisado. Mesmo assim, indagou mais uma vez a um nativo da região que ali estava. "Ah!,
tem água, sim!" O meu Pai: "Entra lá no rio e vê por onde dá a água." O nosso amigo: "A
água dá por aqui." ... e colocava a mão atravessada, tão ao jeito africano, pelo meio da perna,
quase a chegar ao joelho...
Troca de impressões que não valeram de nada porque o meu Pai já tinha tomado a decisão no
Lubango: atravessaria o Rio Giraúl, desse por onde desse!
Engatou a marcha e começámos a atravessar o rio... e o "Pampas" atolou!... no meio do rio!!!
A noite foi chegando... Depois de várias tentativas infrutíferas, o meu Pai resolveu deixar-nos
no carro, passar o rio a pé, em direcção a Moçâmedes, atravessar os morros próximos: do outro
lado estava uma das fazendas que ele administrava e traria de lá uma junta de bois, ou mais... já
não me lembro, para retirar o carro do rio.
E nós? A minha Mãe e eu? Ficámos no carro... Eu no colo dela... Contava a minha Mãe, que
eu dormia pacificamente, completamente alheia ao que acontecia... Como não havia capota, a minha
Mãe pôs o seu casaco comprido por cima dela para me proteger da humidade da noite... De vez em
quando, ela sentia o "Pampas" mexer-se um pouquinho, "acomodando-se" ainda mais nas areias do
leito do rio... a água, pela falta das portas, passava livremente (é claro que não era um caudal,
mas corria) e ela encolheu as pernas e manteve-as numa posição elevada, desconfortável, para não
se molhar...
Finalmente, pela madrugada, o meu Pai voltou com alguns empregados e os bois... Depois das
manobras necessárias para prender o "Pampas", puxaram-no para fora do rio...
Abro um parêntesis para comentar que, quando pela primeira vez apresentei esta crónica, hesitei
em relatar um pormenor, receando que, os que não conheceram a Angola da década de 40 do século
passado, fossem levados a pensar que estaria a "carregar nas tintas" :)) ... Posteriormente,
troquei impressões com pessoas que lá nasceram ou viveram, e fui incentivada a completar a minha
descrição:
Considerando o estado em que o "Pampas" ficou (principalmente o motor), depois de uma noite
atolado no rio, não fomos só puxados para fora do rio pela junta de bois... foi dessa maneira
que percorremos os 18 km que separam o Giraúl de Moçâmedes e assim entrámos na cidade :))...
para o meu Pai, uma delícia!
O final da crónica, esse, é o mesmo: a cheia, tão imprevisível, tinha aguardado que saíssemos
do rio para que nada nos acontecesse...
Aliás, não foi a cheia. Foi Deus.

Daniel Lavadinho Mendes Conceição foi colega do meu Pai, porquanto trabalharam ambos na firma moçamedense Antunes da Cunha. Acerca desta crónica, recebi dele os comentários abaixo, que enriquecem o quadro e a história:
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O Giraúl era para mim um lugar mítico; quer o Giraúl de Cima como o Giraúl de Baixo, este,
como o nome indica, mais próximo da foz. O Giraúl de que a Aida fala, é o Giraúl de Cima,
aquele pelo qual passávamos quando íamos ou vínhamos de Sá da Bandeira por estrada. De caminho
de ferro, era o contrário: só passávamos pelo de baixo. A distância entre os dois "giraús", se
assim se pode dizer, pelo leito do rio seria uns 15 km (...)
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