Idas às Hortas

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Hortas, como se dizia em Moçâmedes, eram as fazendas. Não eram extensas e talvez por isso eram assim chamadas.

Comecei muito cedo a acompanhar o meu Pai na ida às hortas. Eram autênticos passeios, divertidos, em que a minha imaginação de criança voou alto, uma lição ao vivo da natureza.

Nas idas às hortas, o meu Pai utilizava uma camioneta "Ford" (desculpem a publicidade :)) )... Eu preferia ir atrás, na carroçaria. Dali podia apreciar a paisagem, usufruir do que havia no caminho... Quando chegávamos à fazenda dos Costa Santos, antes de se atravessar o Rio Bero, a estrada principal daquela fazenda era ladeada por goiabeiras, que davam uns magníficos frutos. Era só esticar o braço, pegar uma fruta e comê-la gulosamente...

Uma vez ultrapassada esta fazenda, virava-se à esquerda e pouco depois chegava-se à beira do rio.

O leito do Rio Bero, no tempo seco, era obviamente só areia e, claro, não havia uma ponte. Por vezes, a viatura enterrava-se. Era preciso ir à fazenda, trazer folhas de bananeira, galhos resistentes, preparar uma "cama" à frente das rodas e tentar sair dali. Nem sempre a primeira tentativa resultava e repetia-se a operação...

A época das cheias proporcionava mais aventuras. No entanto, só me era dada permissão para acompanhar o meu Pai se o rio fosse seco ou já estivesse bastante vazio. Neste caso, preferia descer do carro e atravessar o rio a pé. Num zigue-zague constante para evitar as poças de água...

Chegada à fazenda, do outro lado do rio, caminhava até à casa principal. Mas, se por acaso, nos campos de luzerna que ladeavam a estrada para a casa, havia trabalhadores a carregarem a carroça com essa leguminosa para o alimento do gado, aguardava que terminassem o trabalho e, depois, empoleirava-me lá no alto e ia de boleia (m.q. carona) até à casa.

Refestelada na luzerna, embalada pelo bambolear da carroça, percorrendo a estrada irregular, olhava o céu... Chegada à casa, sacudia algumas folhas mais pequenas que tinham ficado presas à roupa... às vezes algum lagartozito... e continuava a minha digressão pelas redondezas.

Ali, eram três as fazendas que o meu Pai administrou. Todas contíguas. Se bem me recordo, a do meio, a montante do rio, chamava-se Simeão. Acompanhava sempre o meu Pai até lá, mas não para ficar ao seu lado. É que logo a seguir havia a terceira fazenda e era para aí que invariavelmente me dirigia.

Era a menos desenvolvida. Mas continha uma relíquia: caminhando à beira-rio, por carreiros, ia-se ter a uma casa abandonada. Casa não; casarão. Segundo o meu Pai, tinha pertencido a gente muito rica. Depois, veio o infortúnio e foi tudo abandonado!

A casa situava-se num alto e, para lá chegar, tinha de subir umas escadarias. Voltando atrás, diria que não seriam menos de 50 degraus, talvez mais. Uma vez lá em cima, podia apreciar a bela paisagem: o rio, os morros circundantes, o silêncio só quebrado pelo zumbido de uma abelha, de uma cigarra... o chilrear dos pássaros... o som longínquo dos animais da fazenda...

Quanto ao resto, era dar asas à imaginação... Percorria uma a uma as dependências da casa. O telhado tinha desaparecido há muito e as paredes eram irregulares, com buracos aqui e ali, a erva crescendo por todos os cantos, gáudio para as lagartixas e outros repteis...

De repente um "fi - fi - fiu!!!" cortava o silêncio: era o assobio usado pelos meus Pais e também por nós crianças, para nos comunicarmos. Sinal de que a brincadeira deveria acabar...

No regresso a Moçâmedes, cansada do passeio, já me contentava com o lugar na cabina, ao seu lado. Vinha da festa... do meu grande parque de diversões. Pela frente, a realidade.

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