A Índia pré-Histórica

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Neolítico

Esta cultura – tal como se conhece na Europa e na África – tem expressão dúbia na Índia e não se segue que os utensílios de pedra polida tenham precedido o uso do cobre no sub-continente. Nos montes do Baluquistão encontram-se utensílios idênticos aos que mais tarde caracterizaram o ferramental de bronze do Indo: facas de sílica, de lâmina comprida e gumes paralelos,
(16) e machados de pedra de secção quadrada. (17) Na Índia ocidental, porém, o que mais se aproxima do Neolítico é, na estação de Sukkur-Rhori, (18) uma indústria tardia de sílica, anterior à civilização do Indo, com afinidades calcolíticas mas sem associações com cerâmica ou com metais; a matéria prima provém do calcário local e os utensílios são lâminas de faca de largura variável mas «um tanto grosseiras e espessas» com raros retoques em um ou ambos os lados. A sul de Catiavar (estações de Lothal e Rangpur) os típicos machados, enxós ou talhadeiras (celts) de secção quadrada podem ter um parentesco com as lâminas das estações calcolíticas do Decão, onde as indústrias, de idades de 1200 a 500 a.C., já são pós-Indo: reflectem uma «intrusão de indústrias de lâminas do nordeste da Índia nas culturas essencialmente microlíticas do Decão», estas representadas localmente por crescentes.

Na Índia oriental, até ao Ceilão, aparecem dois utensílios de pedra polida muito comuns – só a norte do r. Godovari se conhece em 80 localidades em que ocorrem: a mais antiga é a talhadeira com cabeça afiada em bico
(19) e apenas polida no gume, típica do Misore setentrional (estação de Brahmagiri); outra, posterior, a enxada de espigão, oriunda da China central, comum na China a sul do r. Amarelo e também na Indochina. Em Brahmagiri as talhadeiras jazem, juntamente com micrólitos, cerâmica grosseira e fragmentos de cobre, sob um nível associado a construção megalítica e uso do ferro datado de c. 200 a.C.; (20) em geral, supõe-se que a indústria dos machados floresceu na Índia entre 1000 e 200 a.C., nas mãos de agricultores sedentários que viviam em cabanas rectangulares de pau-a-pique entalado em fundações de pedra; (21) os machadinhos estão por vezes associados a montículos de cinzas – pilhas de estrume queimado em fogueiras comunais – que indicam que os residentes possuíam gado, infiltrando-se c. 1000 a.C. «nas selvas dos montes de nordeste, vindos dos lados de Burma, se não de mais além», com uma indústria neolítica originária da China central. A partir do século IV a.C. a talhadeira espalha-se na Malásia, já com alguns utensílios de bronze, enquanto a enxada está a entrar na Índia, vinda do nordeste.


O Indo

A civilização do vale do rio Indo deve-se ao povoamento da região, então densamente florestada, por um povo de agro-pastores oriundo do Baluquistão, que até então vivia em aldeias montanhesas, isoladas e de um tipo que lembra as da Grécia arcaica; irrigavam [estes anatólicos
(22) ] os seus dos vales por represa dos córregos e utilizavam ainda facas de pedra; mas já c. 3000 a.C. fabricavam também uma cerâmica de boa qualidade, pintada com motivos geométricos e naturalistas, semelhante à típica da cultura do planalto iraniano; conheciam o cobre, que usavam em ornamentos. Esta cultura estabelecia-se pouco depois de 2500 a.C. no vale do grande rio.

Tanto em Mohenjo Daro como em Harapa a civilização indo-anatólica denota uma fase de crescimento e outra de decadência; esta tendência afecta todo o complexo de povoações a que deu origem, do Lahore à costa e da foz do Indo ao golfo de Cambaia. As povoações são [um exemplo, único na Antiguidade, de ocupação planificada a longo prazo,] traçadas segundo planos reticulares, com água canalizada e esgotos, construídas quase inteiramente de tijolo cozido, nas quais a decadência se terá instalado por dois motivos principais: a desmatação excessiva – causada pela produção de combustível para os fornos onde se cozia o tijolo e pela exportação de madeiras, provavelmente para a Mesopotâmia – e [a consequente alteração do regime de erosão e assoreamento do vale, que causou] a subida progressiva do nível das águas do Indo, razão de ser das obras de protecção das cidades ribeirinhas. Por fim, o vale já não comportava a vida urbana que, durante o seu apogeu, promovera a unidade cultural desta civilização, [apontando para a sua natureza colonial, e que é] nada menos que espantosa.

As ligações da civilização do Indo com a mesopotâmica – de séculos mais antiga que aquela – prova-se pelos registos de cargas, datados de c. 1950 a.C., relacionadas com o comércio marítimo dos mercadores de Ur, na Caldeia, ouro, prata, lápis-lazúli, contas de pedra e produtos tipicamente indianos: tintas para os olhos, pérolas, certas espécies de madeiras e pentes e ornamentos de marfim. Os [conterrâneos de Abraão] recebiam estas mercadorias através da ilha de Barém, no golfo Pérsico, a Telmua fronteira à costa de Cambaia, mas do outro lado do Oceano Índico; vinham de Makan e de Meluha, que eram portos de destino dos barcos do golfo já no tempo de Sargão de Acade, c. 2350 a.C. Melúa compara-se a um centro comercial do Indo, tal como Mohenjo Daro, pelo comércio em artigos de marfim, típico da Índia setentrional, e no fornecimento de «macacos e pavões», animais exóticos na Mesopotâmia; deixa de ser mencionada c. 2100 a.C. mas o comércio de Macan com Ur em «cobre, pedra, madeira, objectos de marfim e certas espécies de animais» só vem a perder-se c. 1700 a.C. com o declínio da dinastia de Hamurabi. Restam na estação de Ras al Quala’a, em Barém, como prova do antigo comércio, os sinetes cilíndricos de esteatite com desenhos derivados da civilização do Indo, prováveis comprovativos dos agentes comerciais indianos no golfo Pérsico.

No segundo milénio encontram-se, de resto, sinetes semelhantes até ao Cáucaso: de facto a civilização do Indo não desapareceu com a aparente destruição de Mohenjo Daro,
(23) já que tanto Harapa como as cidades costeiras a sul de Catiavar perduraram até ao estabelecimento da cultura iraniana na Índia setentrional c. 1000 a.C. Eram estes Jhukar gente de cultura material inferior à das antigas cidades clássicas do Indo, que embora utilizassem sinetes cilíndricos reminescentes do modelo mesopotâmico então corrente no Irão setentrional e até às portas da Europa, se serviam de uma cerâmica grosseira; no cemitério do vale do r. Zhob, no Baluquistão, a cultura assemelha-se à de Sialk I: são os ‘bárbaros’ de que nos falam os textos sagrados. (24)



16. São raramente retocadas, mesmo no lado; algumas com dorso e entalhes na base para encabamento.
17. Estes são «por vezes enormes», de secção quadrada, «que poderão ter sido enxadas ou utilizados no corte de árvores.»
18. Numa planície de que restam mesetas acima do nível daquela em que se encontra construída Mohenjo Daro; além das lâminas há raspadeiras... núcleos cónicos, em pequeno número, com marcas de lascagem compridas, estreitas e pouco fundas, à semelhança dos... típicos da civilização do Indo... e raros núcleos parecidos com... coups-de-poing chêulicos.»
19. A talhadeira – não confundir-se com o ‘talhador’ ou pebble-tool – é um utensílio de corte ‘moderno’, muito semelhante à ferramenta ainda hoje usada na forja dos metais; a descrição sugere o encabamento em duas posições a 90º uma da outra, como na enxó/machadinha africana.
20. A espessura da camada (2,7 m) sugere uma acumulação de ±500 anos.
21. Os actuais Reddi que ladeiam a garganta do Godovari no Decão são provavelmente um vestígio dos antigos nómadas recolectores mais ou menos sedentarisados pela necessidade de semearem – usavam pau-de-cava em vez de enxada – e criar alguns animais em redor de «aldeolas de pequena importância».
22. A raça anatólica ocupava a região do sul do mar Cáspio aos montes Pamir, e já na pré-história ocupou também a faixa palestina e estendeu-se até à Arábia meridional, onde deixaram descendentes nas montanhas do Hadramaut. Terão sido povos desta raça que, na região setentrional da Índia, estabeleceram a base étnica para a futura imigração de povos que falavam dialectos de origem iraniana, os Arjan ou Aryan.
23. Antes de 1500 a.C. (?) e associada na história romântica da região com uma ‘invasão’, relatada com natural exagero religioso no poema Rig Veda, de ‘arianos’ – gente, afinal, da mesma cepa racial dos anatólicos que haviam colonizado o vale do Indo mil anos antes.
24. O Rig Veda é o ‘documento’ que refere repetidamente os massacres dos indígenas do vale do indo pelos ‘bárbaros’ que se associam tradicionalmente com gentes do Cáucaso; porém a arqueologia – registando embora um ataque à povoação, então já decadente, de Mohenjo Daro – não confirma o desaparecimento de uma Hari-Yupiya (a actual Harapa?) nem outra coisa senão uma ocupação progressiva, de antes de 1500 até ±1000 a.C., tanto do vale do Indo como do Baluquistão. Durante este período terão aparecido as muralhas em torno das cidades principais, porém a destruição de Mohenjo Daro às mão de ‘arianos’ era, em 1959, apenas conjecturável do ponto de vista arqueológico, segundo Wheeler.


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