As Latadas
Suponho que todos nós tivemos já um "contacto imediato", por assim dizer, com as latadas da
primeira situação. Tanto em Portugal como em Angola onde, apesar das proibições, impedimentos
e uns quantos mais substantivos, seus sinónimos, se cultivava a uva... só para mesa, a muito
custo autorizada pelo governo português colonizador. Em Angola, os quintais eram uma marca
registada das casas antigas e também de algumas mais recentes e, bastava que os seus muros
fossem altos, para que ninguém se apercebesse que aquele português, ou seu descendente,
contrariando o determinado pelo governo português, cultivava a uva para vinho e dava, assim,
continuidade a um dos mais arraigados hábitos da alimentação lusitana: o copo de vinho às
refeições.
Verdade seja dita que, no nosso ramo (os meus Pais, o meu irmão e eu), como angolanos
nacionalistas, decidimos, a páginas tantas, que não entraria na nossa casa tal produto de origem
portuguesa. Era uma das maneiras de marcarmos as nossas ideias...
Afinal, não nos faltavam alternativas, uma bem próxima... a África do Sul vizinha: os huguenotes
franceses, introduziram naquele país vizinho o cultivo da uva e, tão bem o fizeram, que o vinho
sul-africano rapidamente se tornou mundialmente conhecido pela sua qualidade... para mim, um
único senão: o seu grau de álcool elevado... Mas havia sempre um remédio: bastava que não o
tomássemos com o estômago vazio... Depois, nunca fomos grandes bebedores... Questão
resolvida! :))
Quanto ao segundo significado, bom!, devemos ter tido algumas vezes a oportunidade de o
compreender na verdadeira acepção da palavra... bastava que pisássemos o risco e a latada era
aplicada! Em consequência das muitas ausências em trabalho do meu Pai, foi a minha Mãe, muito
mais do que ele, que nos transmitiu os ensinamentos da chamada "educação". Ela só aplicava a
latada ou bofetada in extremis: recordo-me que quando, pequenos, fazíamos algo de
errado, ela não aplicava o correctivo de imediato. Primeiramente explicava-nos que o que
tínhamos feito não era correcto e por que razão não o era. Agora, se prevaricássemos, aí sim,
a situação poderia complicar-se, mas sempre em conta e medida porque ela foi sempre uma pessoa
justa e jamais usou da força da maneira brutal de que muitas vezes ouvimos falar, ou até
assistimos no decorrer da nossa já longa vida. E atenção!: a parte agredida, por assim dizer,
eram os músculos glúteos, jamais a face!
E... quantas latadas muitos de nós apanhámos, quando crianças ou até mesmo mais crescidotes, no
decorrer de brincadeiras ou na troca de palavras mais acaloradas com os amigos ??? :)))
Há ainda a latada coimbrã... tradição dos estudantes de Coimbra de que o dicionário não se
lembrou...
Como estrangeira que sou :))))), resolvi pedir ajuda a uma amiga figueirense. Os figueirenses,
pela proximidade à cidade de Coimbra, acompanham de perto as comemorações estudantis e, por
altura da queima das fitas, no final do ano lectivo, é na Figueira da Foz que invariavelmente
tem lugar a tourada, no domingo anterior ao desfile dos estudantes, na sua cidade. Nesse
domingo, a Figueira é dos estudantes conimbricenses e há que lhes fazer as vontades... ou quase
todas que, às vezes, os vapores do álcool, não os deixam vislumbrar os limites...
Pois, bem, como me foi explicado, a latada coimbrã é, nada mais nada menos, que a introdução dos
caloiros na praxe. O cortejo é feito com tudo o que lhes vem à cabeça e os caloiros vão vestidos
da maneira mais estapafúrdia: casacos do avesso, roupa de mulher..., enfim, é-lhes infligido o
máximo da humilhação para que compreendam que são umas "bestas". E por serem "bestas" têm
cornos... Segundo a praxe, estes só lhes caem no dia do cortejo da queima das fitas, no final
do seu primeiro ano lectivo. Uma vez caídos os cornos, põem, no seu lugar, uns adesivos em
cruz... É a irreverência estudantil manifestando-se... Apesar de todas as imposições, é-lhes
concedido o direito de terem madrinhas e padrinhos.
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