E das latadas ou assuadas com latas velhas em Angola, alguém se recorda? Eu não... já não eram
do meu tempo. Aconteceram no tempo dos meus Avós, dos meus Pais, ainda jovens... lá pelas
décadas de 20 e 30... Tenho conhecimento delas porque mas descreveram...
Procedimentos talvez herdados de hábitos registados antigamente, no norte de Portugal... daí o
termo "faca e alguidar"... foi-me explicado...
Era o tempo em que os valores eram levados a sério... a história do fio da barba,
recordam-se?... aprendemos na História de Portugal, que nos era imposta na forma de um espesso
livro, recheado de pormenores que tínhamos a obrigação de saber de cor e salteado, comparado com
a História de Angola (como é que se intitulava aquele livrinho pequenino e fininho???... "Breve
Introdução à História de Angola" ou coisa parecida...)
Bom, mas voltando às latadas... Havia solidariedade, ninguém ficava só no seu leito de doença
ou de morte. A família, os amigos, os vizinhos revezavam-se para que houvesse sempre alguém ao
alcance da mão, a qualquer hora do dia ou da noite... Mas, desde que o mundo é mundo, há
Caíns... os que não são correctos, os que cometem irregularidades.
Pois naquele tempo, no interior de Angola - e neste caso refiro-me às cidades e vilas que foram
surgindo ao longo do Caminho de Ferro de Benguela - se alguém cometesse uma acção que
colectivamente fosse considerada nociva para a sociedade, resolvia-se a questão informando-se o
infractor de que tinha "x" horas para fazer as malas... normalmente até à chegada do próximo
comboio proveniente do Leste, cujo destino final era o Lobito, onde oportunamente chegaria um
navio que os levaria de volta ao "puto", como nos referíamos a Portugal. Sei de dois
casos específicos... é claro que não vou citar nomes, mas posso resumidamente descrever o que
fizeram para merecer o "desterro": um era médico... os seus erros clínicos acumulavam-se, até
que aconteceu a gota d'água que determinou que ele e a família fossem convidados a deixar a
cidade; o segundo caso aconteceu com um membro do clero da Igreja Católica Apostólica Romana
que, como tantas vezes acontece ainda hoje (e noutros credos, também), não resistiu à beleza
feminina e caiu em tentação! A população tomou conhecimento, não gostou e não teve dúvidas:
deveria abandonar a cidade. A ruidosa latada acompanhou-os até onde foi possível..
Destacando: Já naquela época os angolanos aplicavam o saneamento, uma acção que se tornou
conhecida em Portugal nos tempos pós-25/4, à luz de ideologias, quantas vezes injustamente,
quantas vezes reflectindo desgostos pessoais...
Então, era só isso que faziam? Onde é que entram as palavras "latadas", "assuadas",
"latoadas"?
Acontecia que os habitantes não se contentavam em ver-se livres dos faltosos: usando as
viaturas disponíveis da época, todos os seus assentos ocupados, os ofendidos acompanhavam o
comboio até onde era possível, batendo latas velhas... em voz alta, davam asas ao que sentiam...
soltavam até impropérios... o barulho era ensurdecedor!
Poderão dizer: "Mas não é uma maneira correcta de se fazer justiça!" Concordo! Mas se nos
situarmos na época, atentarmos aos hábitos, às leis que deveriam ser muitos lentas e
enviesadas... como sempre... até hoje... :), talvez possamos compreender a latada angolana.
Estou certa que os escorraçados, não se esqueceriam da despedida e, quem sabe?, lhes servisse
de exemplo e os levasse a reconsiderar os seus comportamentos, regenerando-se?