"Backgrounds Etc."

"Primeiras Letras em Angola"
Introdução

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A História apresentou-se-nos, durante séculos, como o resultado da acção dos chefes, condutores dos povos e personagens de maior relevo e projecção Houve, depois, quem quisesse fazer História anónima, global, sem referências individuais. Tão falsa é uma concepção histórica como a outra. Se a primeira corresponde à crónica de um pastor ou de um caudilho, a segunda nada mais é do que a história de um rebanho, da multidão indefinida.

A obra que agora se edita teve em vista arrancar do esquecimento nomes olvidados, embutidos no ambiente angolano, no seu panorama escolar. Seria muito mais fácil dar em pinceladas rápidas ideia global do que foi a caminhada da escolaridade, nos três quartos do século que nos propusemos estudar: de 14 de Agosto de 1845 a 22 de Fevereiro de 1919. No entanto, preferimos descer ao pormenor, observar as personagens, analisar um por um os factos e os indivíduos.

Não pretendemos, de forma catedrática, tirar conclusões; quisemos apenas fornecer elementos de estudo.

Não é difícil explicar porque nos fixámos no período indicado. Em História há necessidade de estabelecer divisões e etapas. A data da criação do ensino oficial no Ultramar e a da fundação do ensino liceal em Angola servem perfeitamente o fim em vista, devido a estabelecerem condições muito particulares. Não foi a 1ª vez que adoptámos esta divisão; não temos a pretensão de estabelecer períodos históricos, em relação a Angola; mas também nos não cabe a culpa dos factos ocorridos e da sua importância.

A origem da elaboração deste livro está na publicação de outro, História do Ensino em Angola, e particularmente do Album Histórico inserido no Apêndice. Pretendemos acompanhar o desenvolvimento escolar em cada uma das povoações e concelhos; mais tarde, verificou-se que haveria vantagem em dar ao trabalho a forma enciclopédica. E assim se elaborou! Estamos certos de que poderá ajudar a resolver muitas dificuldades, quando se intentarem monografias históricas de cada uma das regiões de Angola.

A Câmara Municipal de Luanda reconheceu o interesse da sua publicação, integrado na colecção comemorativa do IV Centenário da fundação da cidade. O facto de o assunto se alargar aos demais concelhos e povoações de Angola, não foi obstáculo, antes representou incentivo. Os seus responsáveis não alinham, como já de outras vezes demonstraram, na via estreita do egoísmo, mas na estrada larga da compreensão!

Qual o interesse que possa ter este livro?

Em primeiro lugar, será uma prova de que é possível elaborar uma enciclopédia geral de Angola. O “Índice Histórico-Corográfico”, de Mário Milheiros, e este trabalho poderão ser considerados como experiências a aproveitar.

Também não deixará de ser útil fazer reviver as condições e as personagens que fizeram o panorama escolar angolano, nos três quartos de século estudados. Permitir-nos-ão fazer deduções muito pertinentes e tirar ilações proveitosas. Muitos erros de outrora persistem ainda nos nossos dias; continuamos a ver crescer as ervas daninhas que prejudicaram a sementeira e a colheita escolares.

Os professores de Angola, pela sua excessiva mobilidade, não conseguiram criar um verdadeiro gosto das populações locais pelo saber e pela cultura. Esse mal persiste ainda hoje e bom seria que fosse combatido.

Grande parte deles não tinha preparação literária satisfatória, não podendo obter bons resultados, devido às condições defeituosas intrínsecas. Não conseguimos dominar ainda esta dificuldade, que mantém presença entre nós.

As autoridades escolares não conseguiram criar no espírito dos agentes do ensino a dedicação pela escola e pelos alunos, não passando, em grande parte dos casos, de vulgares e banais mercenários. Embora sob forma diferente, este defeito não se extirpou ainda, pois uma destacada individualidade deste sector da administração afirmou um dia que grande parte dos professores de Angola estão a fazer comissão em vez de cumprirem missão.

As instalações escolares eram deficientes e isso reflectia-se nos resultados. Nos nossos dias sofremos também do mesmo mal.

Faltavam por vezes os livros escolares. Se hoje se não manifesta muito esta ocorrência no ensino Primário, não deixa de se manifestar de forma alarmante nos graus que se lhe seguem.

A pobreza dos alunos e suas famílias criava dificuldades diversas. Infelizmente, não conseguimos debelar ainda este cancro social.

A extensão da escolaridade atingiu limites que há meio século pareceriam utópicos. Porém, não avançámos tanto como pode parecer na perfeição didáctica e na excelência pedagógica, que estamos muito longe de atingir...

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