"Backgrounds Etc."
"Primeiras Letras em Angola"
Biografias de Mestres
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Irene Bettencourt de Medeiros Portela
mereceu, pelas suas inegáveis qualidades e dedicação à causa do ensino, ser escolhida para
titular de uma escola do distrito da Huíla, que tem orgulho em ostentar o seu nome. Encontramos
referências biográficas a seu respeito no livro Patronos das Escolas de Angola.
A sua nomeação como professora da Escola Municipal de Luanda foi muito agitada, foi mesmo
exageradamente agitada. Vamos resumir alguns documentos que se lhe referem.
Irene Bettencourt de Medeiros interpôs da deliberação da Câmara Municipal, através do seu
procurador, Joaquim Zeferino de Sequeira Morais, a qual, na sua sessão de 13 de Fevereiro
de 1901, nomeara para o lugar de professora da cadeira de ensino rudimentar, da cidade baixa,
outra senhora, de nome Isabel Piedade da Silva Spínola. O anúncio do concurso, que se estendia
por sessenta dias, tinha sido publicado em 17 de Novembro.
Irene Bettencourt de Medeiros instruiu o seu requerimento com cinco documentos, reconhecidos
por indiaemina, e que eram: pública-forma do diploma do curso da Escola Normal de
Lisboa, que a habilitava para exercer o magistério primário; certidão de idade, mostrando
ter nascido em 8 de Fevereiro de 1877, embora haja outros documentos que afirmam ter sido em
6 de Novembro de 1876; atestados de muito bom comportamento, passados pelo pároco e pelo
administrador do conselho da sua residência; e atestado médico, afirmando que tinha
constituição regular e não sofria de moléstia alguma. A segunda concorrente, Isabel
Spínola, residente em Luanda, juntara ao seu requerimento os seguintes documentos: atestado
médico, afirmando não sofrer de moléstia contagiosa; certidão do exame de 1º grau da
instrução primária elementar, feito no Liceu do Funchal, em 1880, que não foi reconhecida
por indiaemina; certificado de que, no registo criminal da comarca de Luanda, nada
constava a seu respeito; e declarações assinadas por várias senhoras desta cidade respeitantes
à sua competência em trabalhos de costura e obras de agulha.
A Câmara de Luanda, apesar da superioridade de habilitações literárias de Irene Bettencourt de
Medeiros, que era professora diplomada enquanto a outra candidata tinha apenas o exame
equivalente à actual terceira classe, nomeou a concorrente Isabel Spínola. Foi disso que
ela recorreu. Em face do processo, o Conselho de Província anulou a nomeação feita, em sua
sessão de 25 de Maio desse ano, declarando que se devolvia aquele processo á Câmara Municipal
para os devidos efeitos.
Parece que os senhores vereadores não sabiam o queria dizer tal expressão; ou se sabiam
fizeram-se desentendidos. E, na sua reunião de 12 de junho seguinte, a Câmara Municipal
de Luanda nomeou outra professora, que não era nenhuma das duas, mas sim Adélia Fernandes
Botelho.
( ...)
Mas os senhores edis eram teimosos. Em 17 de Dezembro desse ano, de 1901, a Câmara Municipal
remetia à Secretaria-Geral de Angola a cópia da acta da sua sessão de 20 de Novembro, em que
foi resolvido por maioria, estando também presente o administrador do concelho, não cumprir
o acórdão do Conselho de Província. Novo acórdão deste alto organismo, de 11 de Janeiro
de 1902, anulava tão ilegal deliberação e, porque a Câmara que assim procedera já não
estava em exercício, por ter terminado o biénio para que fora eleita, mandava-se que a de então
fosse intimada a ar imediato cumprimento às deliberações tomadas, nomeando professora municipal
a referida senhora, Irene Bettencourt de Medeiros.
Sabemos que tomou posse do cargo, tão ardentemente disputado, no dia 14 de Abril de 1902. Um
documento posterior afirma ter-se conservado aqui até 30 de Setembro de 1906.
O nome deste agente de ensino aparece-nos a fazer parte do júri de exames de 1904, na cidade de
Luanda. Aparece-nos, igualmente, como vogal do júri que fez os exames de 1906, juntamente com
o P. Joaquim de Oliveira Gericota e o Dr. António José Cardoso de Barros, que foi procurador da
Fazenda e da Coroa, e secretário-geral de Angola, o qual seria o presidente.
No dia 24 de Julho desse mesmo ano de 1906, Irene Bettencourt de Medeiros Portela tinha sido
nomeada mestra régia da escola feminina do concelho do Lubango.
( ... )
Mantinha-se ainda na mesma escola na data que serve de limite a este trabalho. Só veio a ser
aposentada, por motivo de saúde, pois sofria de acentuada deficiência visual, aí pelo ano de
1938.
Em 1946, deslocou-se para Lisboa, onde veio a falecer, no dia 2 de Janeiro de 1958. O seu
nome foi atribuído, como já dissemos, à Escola Profissional da Humpata, por portaria de 17 de
Setembro de 1970.