Lubango..., para nós que vivíamos no Sul de Angola, era um destino natural. Íamos de carro ou
de comboio... mais de comboio... Por altura das Festas de N.S. do Monte, então, usavam-se
todos os meios de transporte: comboio, carro, carrinha, camião. A boleia (m.q. carona)
era a solução natural para quem não tinha transporte próprio.
Além da habitual preparação das malas, como bons descendentes de portugueses, não se passava sem
o farnel: sanduíches, carne assada, pataniscas, peixinhos-da-horta, fatias de bolo, bolinhos
secos, fruta variada. E água... só.
Parecia que íamos para o fim do mundo... ali... a cerca de 200 km de distância...
Os alimentos eram acondicionados em cestos de caniço, confeccionados pelos nossos irmãos de raça
negra. Tenho um até hoje, que me foi oferecido já na África do Sul, em 1976, e proporciono-lhe
a manutenção que lhe é devida para que perdure, porque é uma das raras peças que guardo do
artesanato angolano.
Em Moçâmedes, morávamos numa casa que fez parte de uma construção do que foi o primeiro colégio
das madres que ali existiu. Foi aí que estudou a minha Avó Aida, nos seus tempos de juventude,
no final do séc. XIX.
Essa construção foi, tempos depois, dividida e adaptada, transformando-se em várias casas de
habitação. Quando os meus Pais foram morar para Moçâmedes, tinha eu 6 meses, não havia casas
para alugar. Alugou-se a primeira que surgiu: era um pedaço do velho colégio...
Pois bem... essas casas situavam-se à frente do antigo campo de futebol de Moçâmedes. Das
janelas, assistíamos de graça aos jogos. Nos dias de grandes decisões, vinha a família, os
amigos e as janelas transformavam-se em improvisados camarotes...
Se observarem a 12ª foto actual de Moçâmedes, no álbum de Angola, poderão ver a zona onde morámos.
O campo de futebol situava-se no descampado que se vê em primeiro plano. Ao fundo, do lado
direito, o bonito prédio branco é a estação do CFM - Caminho de Ferro de Moçâmedes. Em
exposição, no largo fronteiro, a primeira locomotiva do CFM.
Era, portanto, fácil deslocarmo-nos até à estação. Rapidamente se compravam os bilhetes e
entrava-se no comboio. Não havia lugares marcados e procurava-se o espaço para o grupo familiar
permanecer junto.
Lembro-me dos primeiros comboios em que viajei: as carruagens tinham bancos de madeira, que
corriam ao longo das paredes laterais. Tínhamos de torcer um pouco o corpo, numa posição não
muito confortável, para podermos apreciar a paisagem, o movimento nas estações...
Quando chegaram os novos modelos, com o alargamento da bitola, foi uma festa! Mais rapidez na
viagem, mais conforto... Aconteceu em 1954, quando da visita do presidente de Portugal,
General Craveiro Lopes, que inaugurou o primeiro troço, de Vila Arriaga (Bibala) até Moçâmedes
(Namibe). Logo as obras continuaram até ao Lubango, depois até à Matala, e mais e mais até Serpa
Pinto (Menongue), mais ou menos 500 km para o interior.
No entanto, foram os modelos mais antigos que me proporcionaram a possibilidade de melhor
conhecer a Serra da Chela. A serra que os meus antepassados tiveram de ultrapassar, nas
circunstâncias a que já me referi, para, em companhia dos outros colonos madeirenses, iniciarem a
construção da cidade do Lubango.
Os que não conhecem a região dirão: mas viajando de carro também se usufrui da paisagem da
Chela. Claro que sim!, mas a abertura das estradas requer mais espaço e também a escolha de
trajectos menos acidentados... exceptuando a estrada da Leba, construída nos últimos anos da
década de 60 (v. álbum de fotografias e postais de Angola).
Usando-se um ou outro meio de transporte, é indiscutível que se atravessa uma das mais belas
zonas de Angola, começando no litoral desértico, alcançando-se a savana pelos lados da Pedra
Grande, depois o Caraculo e o Munhino, de onde se avistam já os contrafortes da Serra da
Chela.