Vamos ao Lubango!
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Ao longo de quilómetros e quilómetros de estrada, avistava-se o Morro Maluco, umas vezes do
lado esquerdo, outras do lado direito e outras, ainda, à nossa frente. Evidência das inúmeras
voltas que a estrada dava... eram cerca de 240 km. Mais tarde, quando se construiu a estrada
da Leba, a distância foi encurtada para uns 200 km! Evidência de como a estrada era sinuosa,
cheia de curvas e contra-curvas, como que uma serpente em movimento...
Recordemos que o Morro Maluco, que referi no texto sobre o Deserto do Namibe e que dista uns 118
km de Moçâmedes (Namibe), poderá ser avistado, se nos situarmos próximo da Praia Amélia, junto
àquela cidade, por volta ou depois das 9 horas da manhã, após dias de boas chuvadas naquelas
regiões.
De comboio, a sensação era que tinham pura e simplesmente rasgado um pouco da sua vegetação para
instalar os trilhos e deixar passar o comboio, um espaçozito de um lado e doutro da composição e
nada mais! Desta maneira, aproveitando a lentidão com que nos deslocávamos, apreciava-se
melhor a serra. Bom..., a lentidão (Na época das chuvas e cheias, a viagem chegava a durar
14 horas!) era de tal ordem que contava-se (contava-se, digo eu...) houve uns mais
aventureiros que desceram do comboio (do velhinho!) e acompanharam-no a pé, nos trechos em que o
seu esforço era maior... a sua deslocação lenta...
Confesso que, influenciada por essas histórias, também senti, por várias vezes, a tentação de
fazer o mesmo. Mas deixei-me ficar pela tentação porque jamais permitiriam que fizesse isso :)) ...
Na viagem Moçâmedes-Lubango, a paragem mais importante, se assim se pode dizer, era na Vila
Arriaga... Bibala, hoje. Nesta vila, parava-se por mais tempo. Mais tempo para os viajantes
se refrescarem, comer algo... aqueles que não traziam o tal farnel... Mais tempo para também o
comboio se refrescar, ganhar forças: parando somente na Humbia, e antes de se chegar ao
Lubango, tinha-se pela frente o maciço da Chela...
Finalmente partíamos... Havia no ar uma excitação pela antecipação da aventura que, atrevo-me a
dizer, não era somente sentida por mim...
Se para os passageiros, como disse, era a oportunidade de literalmente passearem pela serra, para
os responsáveis pelo bom funcionamento do comboio, era o oposto: a lenha, o seu combustível,
tinha de ser continuamente jogada para dentro da esfomeada fornalha e o funcionário seguia, serra
acima, numa ginástica constante de "abaixa-pega-a-lenha-atira-para-dentro-da-fornalha"...
A minha memória não consegue descrever o que se seguia, uma vez transposta a serra. Nem em termos
de paisagem, nem de tempo que restava até chegarmos à cidade do Lubango. O contraste, no entanto,
era notório.
Para trás, tínhamos deixado a cidade de Moçâmedes, nascida das areias do Deserto do Namibe; onde
o verde lhe tinha sido plantado: o jardim, que acompanha vários quarteirões das residências mais
antigas, é disso um exemplo e foi iniciado no séc. XIX. No livro "Memórias de Angola", uma bela
colecção de postais com que nos brindou João Loureiro, podemos ver um postal desta cidade, de
1908, onde se vê o jardim em pleno desenvolvimento.
Por outro lado, a paisagem da cidade do Lubango, no planalto da Huíla, é completamente diferente.
Ali, o verde desenvolve-se facilmente, em formas e tons muito variados. No livro de postais
a que me refiro, há também um registo dos jardins do Lubango, no início do séc. XX. Sugiro que
apreciem os jardins existentes nesta cidade e também no complexo da Senhora do Monte, no início
da segunda metade do século passado, no álbum de fotos e postais de Angola.
Uma característica comum às duas cidades: nasceram e iniciaram o seu desenvolvimento no séc. XIX,
consequência do trabalho árduo e do amor dos seus filhos.
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