A Praia das Miragens

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Basta estendermos o nosso olhar para alguma distância, fixando-o nas areias da praia, e lá estão elas, as miragens... características do deserto... Nada mais natural do que apelidar a praia principal de Moçâmedes de "Praia das Miragens"...

Se a Morena de Benguela está no meu coração, por ser a da minha cidade natal, são da Praia das Miragens as recordações dos meus primeiros tempos de vida.

A minha Mãe, apesar de ter nascido a bordo de um navio, não gostava de praia e jamais tomou banhos de mar. Todavia, porque sabia que ela é importante para as crianças, fez questão de nos levar até lá enquanto não ganhámos asas.

Contava ela que, a primeira vez que me levou, ainda bebé, acabei adormecendo no seu colo. Quando acordei, um pé tinha descaído e assentado na areia. Logo tomei consciência de que ali estava uma textura desconhecida... Atentamente, mexi o pé e enterrei-o ligeiramente na areia e movimentei-o. Devo ter gostado da sensação porque fui assídua frequentadora de todas as praias...

Quando nos mudámos para a nossa casa (o pedaço do 1º colégio das madres), a praia ficou mais perto. Mas foi só depois do meu regresso do Lubango, onde fiz o 1º ano da primária, que me foi dada a liberdade de ir até lá sozinha...

O trajecto mais comum era caminhar pelos primeiros quarteirões do jardim, até chegar às antigas instalações dos bombeiros, perto do coreto, onde mais tarde foi construída a fonte luminosa... Aí, entrava na "rua" que terminava na praia, tendo do seu lado direito um aglomerado de casuarinas que, no tempo quente, ofereciam uma agradável sombra e do esquerdo o Clube Náutico. No tempo da minha Avó Aida, ia-se até lá para tomar chá e, dizem!, punha-se a má língua em dia :)))) Não era um local que me atraísse... as areias douradas da praia acenavam-me e não resistia ao seu chamado...

Havia, porém, outro caminho que preferia... não fosse eu filha do Inácio Saiago, o aventureiro... Saindo de casa, dirigia-me à estação do Caminho de Ferro de Moçâmedes. Do seu lado esquerdo, havia um armazém que, se bem me recordo, era onde se depositavam as mercadorias, tanto as que chegavam como as tinham os mais variados destinos. Entre a estação e esse armazém havia um portão( ? ) que atravessava... Do outro lado, estavam as linhas do caminho de ferro, locomotivas, carruagens... Era, portanto, obrigada a atravessar os "obstáculos", ao mesmo tempo que tinha que estar muito atenta aos movimentos... por vezes era obrigada a parar para deixar passar uma composição, que se preparava para, provavelmente, partir para o planalto... Aos poucos, ia-me encostando a umas moradias que ali havia, até chegar ao aglomerado de casuarinas.

Na minha infância, além dos toldos coloridos individuais, tinham sido construídos uns toldos grandes, que hoje chamaríamos de comunitários, espécie de estrutura de madeira com uma cobertura que mediriam, sei lá!, uns 6 x 3 m...

Era na areia, à torreira do sol, que gostava de ficar... o mais perto possível da água... Nesses toldos reunia-me com algumas amiguinhas para jogarmos ao prego (comprei inúmeros no Antunes da Cunha, porque os perdia...), jogo inventado ali mesmo?... não sei... mas que exigia habilidade e destreza: do ângulo e do impulso, além das variações com que o jogávamos à areia, dependia perder ou ganhar...

A Praia das Miragens, naturalmente frequentada pelos moçamedenses, recebia no verão a visita de muitos habitantes do Lubango, doutras terras do planalto... era a sua praia mais próxima... O seu movimento aumentava substancialmente... a foto de apresentação desta crónica é bem representativa.

Era perto da uma da tarde, quando a praia já se tinha esvaziado de gente, o vento da tarde já soprava mais forte, originando ondas mais vigorosas, que eu tinha os meus momentos especiais: a praia era frequentada por toninhas, parentes dos golfinhos. Tal como estes, elas são extremamente sociais. Com menos gente na água, podia chamar a sua atenção para minha pessoa e desfrutar da sua companhia: mergulhava e nadava em direcção à jangada (um estrado quadrado, de uns 3 x 3 m, que flutuava graças a tambores de ferro vazios, presos à sua parte inferior, e que eram periodicamente substituídos pelas razões óbvias...), sempre acompanhada por uma ou mais toninhas... Ou, então, deixava-me ficar na rebentação, furando as ondas, atitude que elas também repetiam, numa perfeita comunhão.

Consigo, até hoje, sentir o encantamento desses momentos divertidos que compartilhei com as toninhas da Praia das Miragens. Tenho a certeza que, tal como eu, muitos moçamedenses terão a mesma recordação, que guardarão como algo de muito mágico que lhes aconteceu.

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