Moeda de Angola

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O Conselho Ultramarino indeferiu, porém, o pedido respectivo do capitão general, pelo que circulou o pano até 1694; de facto, em 31.03.1688, no reinado de D. Pedro II, o Conselho decidira já mandar cunhar, especialmente para Angola, a franquia 5 reis; cunhou-se em 1693 e veio para Angola com o capitão general Henrique Jaques de Magalhães no ano seguinte; mas como a moeda desse origem a duas rebeliões entre a soldadesca brasileira da guarnição da Luanda – o valor nominal do soldo era 200 reis, mas quando pago em panos valia 700 – parece que nunca circulou em Angola, já que só as moedas de 20 reis cunhadas em 1695 para “o Brasil e Guiné” se têm encontrado no país: o autor repara que nunca viu em colecções nem leu qualquer menção de os 5 reis (1693) e 10 reis (1695) terem circulado em Angola. Circularam, porém, no Brasil, a partir de 1704, e de então até ao reinado de D. José a moeda de Angola era a que se cunhasse para o Brasil. Assim, no reinado de D. João V correram em Angola as da moedas brasileiras de 20 e 10 reis (cunhagens de 1715, 1719, 1735 e 1736), e os 20, 10 e 5 reis (1749) do estado do Maranhão; a mais abundante terá sido, no entanto, a de 10 reis (1737) do Reino. (1)

A princípio do reinado de D. José corriam em Angola moedas do “Brasil e Guiné” de 40 reis (1753 e 1757), e de 20, 10 e 5 reis (1752 , 1753 e 1757); mas em 1762 (e em 1763, 1770 e 1771), (2) no governo do Marquês de Pombal, cunhou-se de novo moeda privativa para Angola: exibia, pela primeira vez, o dístico “África Portuguesa” e chamava-se macuta, por referência aos famosos ‘panos do congo’, os makuta. Uma macuta-moeda valia a princípio 50 reis3 ou meio-tostão [a moeda de cobre de 100 reis conhecia-se por ‘tostão’ dada a cor que apresentava quando oxidada]; as moedas foram cunhadas em prata nos valores de 12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, e em cobre nos de 1, ½ e ¼ macuta; esta última (cunhada em 1771) chamava-se ‘quipaca’ na Guiné, onde a antiga moeda de 5 reis [1/10 da macuta] (3) se conhecia por ‘pano’.

A moeda angolana foi desvalorizada em 50% no reinado de D. João VI; a carimbagem, de má qualidade, foi feita no decorrer dos anos de 1814-16, nas oficinas das missões católicas, que usaram os seus próprios carimbos. No reinado de D. Miguel fizeram-se ensaios para novas macutas, mas entretanto sobreveio a guerra civil portuguesa. Sob D. Maria II a moeda angolana foi decimalizada em 1838, e quando novas emissões apareceram (1848-1851 e 1853) a macuta tinha-se desvalorizado outra vez, em 20%, de 50 reis para 62,5 reis; do mesmo modo, ‘peças’ e ‘meias-peças’ do Reino, de 7500 e 3750 reis, começaram a circular em Angola com os valores de 13000 e 6500 reis. Desaparecia a macuta.

Sob D. Luís I corria em Angola a mesma moeda que em Portugal: ensaiou-se em 1886 uma moeda de 20 reis privativa para Angola, mas o projecto não se realizou e os reis do Reino continuaram a circular em Angola nos primeiros 10 anos da República.

No governo geral do general Norton de Matos, e por despacho ministerial de 07.02.21, voltou a cunhar-se moeda privativa para Angola, em que figurava no anverso o perfil da ‘república’: em 1921 (1, 2 e 5 centavos em bronze, 10 e 20 centavos em cupro-níquel), 1922 (5 centavos em bronze, 10 e 20 centavos em cupro-níquel, 50 centavos em níquel), 1923 (5 centavos em bronze, 50 centavos em níquel) e 1924 (5 centavos em bronze).

Nas primeiras emissões de moeda angolana do Estado-Novo, toda em alpaca, em 1927 (50, 20, 10 e 5 centavos) e 1928 (50, 20 e 10 centavos), reapareceu a palavra ‘macuta’ – agora com o valor de 5 centavos – e a face da ‘república’ era mais feminina que nas moedas anteriores. Mas desapareceu das emissões seguintes, em 1948 (50 centavos em bronze-níquel, 20 e 10 centavos em bronze), 1949 (20 e 10 centavos em bronze) e 1950 (50 centavos em bronze-níquel), bem como o perfil da ‘república’; além disso, o escudo português foi substituído por um desenhado especialmente para Angola, em que figuravam um elefante e uma zebra. Moedas de prata, do mesmo desenho, mas de 20 e 10 escudos, apareceram em 1952; o escudo (o antigo tostão, ou 100 reis) em 1953 (1 escudo e 50 centavos em bronze, e 2,5 escudos em cupro-níquel). As últimas cunhagens deste período da República portuguesa, referidas pelo autor, datam de 1967.

Mutsuku – Tipo de lingote encontrado na estação de Rwena, no Magaliesberg, que correu no Transvaal setentrional, fabricado pelos Kwena a partir de antigos modelos pré-bantos (Lemba). Tipo especial do lingote cilíndrico, tal como o lerali, tem o feitio de um feixe de varões constricto ao meio, com tachas (studs) no topo, e era utilizado também como monumento sepulcral, como as efígies de pedra que os antigos muxicongos colocavam sobre as suas campas.

Ongondo – Manilha de cobre colocada antigamente nos artelhos das mulheres dos homens mais abastados, de valor proporcional ao peso, que variava de 0,5 a 7,0 quilogramas: as mulheres mais ricas tinham por isso que ser transportadas de cadeirinha; era, afinal, um tipo de lingote cilíndrico, mas moldado, que correu em Angola desde o Cuanhama ao planalto de Luanda: um espécime encontrado em Saia, perto de Dalatando, mede 24 cm de diâmetro e 4 cm de espessura – não é, portanto, um anel de artelho – e pesa 5,430 quilogramas; o autor menciona que um destes objectos, de 1,240 quilogramas (11 cm de diâmetro por 2,8 cm de espessura), comprava um bezerro.

A colocação de um ongondo no artelho de uma mulher envolvia primeiramente o corte e formação inicial da argola, usando uma trolha em forma de pêra, a maçaneta ou otyikalo, e um cone de calibragem, também de ferro, o osinua; a argola, depois de batida em redor do cone, era então aberta para deixar passar o artelho, e fechada de novo a frio, com o auxílio do otchicalo, sobre um calhau a servir de bigorna: tinha que ser uma operação delicada. O autor refere-se a um jazigo de minério para este cobre “no Cuamato, num local de difícil acesso, a leste do deserto do Roçadas... [na] mulola do Tchimpôro.”

Pano

Zimbo – O autor pensa que a palavra é quimbunda: é conguesa (nzimbu), sendo a pesca da cíprea angolana praticada entre Luanda e o rio Longa, provavelmente por canoeiros de língua banta que os autóctones pré-bantos chamaram solungu, ‘senhores dos lungu’, sendo lungu o nome dado antigamente à canoa marítima entre a margem direita do rio Zaire e o Gabão; eram de facto nobres da corte do régulo dos Su-hu (‘sung-hu’) – mais tarde ‘conde’ de Son-ho, termo aportuguesado nos documentos coevos para ‘Sonho’ e hoje nacionalizado como ‘Soyo’ – que o rei do Congo autorizava como fiscais da pesca do zimbo na “ilha” de Luanda. A palavra conguesa foi quimbundizada para yimbu, por onde o crioulo jimbo.


1. Estas moedas terão estado ainda em circulação em Angola em princípios do século XIX, já que, segundo o autor, foram desvalorizadas em 50% por decreto de 18.04.1809.

2. O autor acha que a moeda de ½ macuta de 1755 no Museu de Angola seria uma prova ou falsificação.

3. Noutra passagem o autor refere que a macuta valia 40 reis, e portanto 5 reis equivaleriam a 1/8 da macuta.


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