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Como atrás relatámos, o governo português encarou com a maior simpatia a transferência para
Angola dos portugueses do Brasil, traduzindo essa vontade política com a publicação da já
referida Portaria 2.063, de 26 de Outubro de 1848, que pode ser considerada a certidão de
nascimento da cidade de Moçâmedes.
O Governador-Geral de Angola, Adrião A. da Silveira Pinto, dando cumprimento à Portaria 2.063,
apressa-se a escolher o local destinado à futura Povoação de Moçâmedes, porque o considera o
mais indicado, quer sob o ponto de vista de salubridade, quer pela fertilidade das terras
adjacentes.
Sem perda de tempo, nomeia o Major José Herculano Ferreira da Horta Superintendente dos trabalhos
de instalação dos futuros moçamedenses e providencia o envio de madeiras e demais apetrechos
necessários àquele empreendimento.
Simultaneamente, entrega ao Major Horta instruções pormenorizadas, reveladoras do muito interesse que dedica a tão auspicioso povoamento.
O interesse pela colonização de Moçâmedes também na Metrópole não esmorece. Prova disso é o facto de, logo em 19 de Abril de 1849, a Raínha D. Maria II promulgar um decreto que cria o lugar de Governador do Distrito, e nomeia para o cargo o Capitão Tenente da Armada António Sérgio de Sousa. (35)
O Governador-Geral preocupa-se por tal forma com esta nova experiência que expressamente se reserva o papel de directo orientador da colonização a iniciar.
Entretanto, passados os folguedos, a vida dura do dia a dia, processa-se rotineiramente. O Governador-Geral Silveira Printo cumprira, pouco antes, a promessa que fizera ao Major Horta, visitando Moçâmedes para se inteirar "in loco" das condições da nova colónia. Desta viagem existe um relatório muito pouco optimista subscrito pelo próprio Silva Pinto ...
Contudo, Silveira Pinto não deixava de ter razões para o balanço negativo que fez. A proverbial falta de água das regiões semidesérticas, aliada a anos de pouca ou nenhuma chuva, o ineficaz apoio governamental, tudo somado, estaria na razão do estado geral das coisas que encontrou em Moçâmedes, onde os martirizados colonos desembarcados em 1849 assistem impotentes à perda das suas culturas e ao desfazer dos seus sonhos.
A Comissão nomeada pela Câmara Municipal de Moçâmedes, ... , prossegue, ao referir-se à chegada dos novos colonos pernambucanos, em 1850:
"Vieram encontrar aquelles em estado deplorável, e faltos de ânimo. Uma esterilidade espantosa, motivada pela séca, o péssimo sustento de má farinha de mandioca e feijão podre, uma nudez quasi completa, tinham levado muitos a tão grande desespero que se julgavam felizes com a praça de soldados, que se lhes dava em recompensa de tantas privações."
Mas, mais adiante, transparece já um sadio bairrismo revelador de um salutar apego à terra, quando proclamam:
"Se nos demoramos a mencionar estes factos é porque julgamos de interesse o seu conhecimento futuro; e porque somos portugueses e desejamos que se saiba no Brasil, em Portugal, e se possível em todo o mundo, que o clima de Mossâmedes é o melhor de toda a África, superior ao de todo o Brasil, e até ao de muitos lugares de Portugal, e quazi igual aos mais salutares e temperados deste último paíz."
Se a situação não era brilhante, se a instabilidade havia ainda de continuar, a verdade é que a
existência de uma Câmara Municipal, já estruturada por forma a nomear Comissões e a promover
inquéritos para detectar e equacionar problemas, prova cabalmente, mal-grado as difíceis
condições de sobrevivência dos seus munícipes, que a colonização tinha tido sucesso e que era
irreversível.
Aliás, terá sido o sucesso desta experiência, que levou, em 1855, "Sua Majestade, tomando em
consideração o progressivo aumento de Mossâmedes,... Houve por bem delevar à cathegoria de
Vila e Julgado, este Estabelecimento, com a denominação de "Vila de Mossâmedes", por decreto
de 26 de Março de 1855, e em 7 de Maio do dito anno foi expedida a Carta Régia, que se acha
arquivada nesta Câmara, em consequência do que, em Novembro seguinte, se procedeu à eleição e
actual Câmara Municipal."
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