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Esta página é a transcrição de um artigo publicado na extinta revista "Flama" (nº 1361, Ano XXX,
datado de 5 de Abril de 1974) que contém um especial de 197 páginas, intitulado "Angola Realidade
'74"...
O texto é de Moutinho Pereira e as fotos de Eduardo Baião.
O artigo relata um pouco da história de Moçâmedes, comenta a realidade de então, mostra-nos as
suas potencialidades. À distância de 27 anos, pondo de parte alguns termos da época, uma
oportunidade para pôr nos pratos da balança o que se fez, o que deixou de se fazer. Quanto
ao que pode ainda ser feito, será tudo uma questão de valores, isto é, colocar-se acima de tudo o
interesse do povo, tão sofrido!, e depor-se as armas porque a guerra, essa, só causa destruição a
todos os níveis!
Transcrevo-o com a devida vénia.
"Querem, mas querem mesmo, que vos fale de Moçâmedes? Querem, de facto, que vos diga como foi
possível erguer cidades no deserto? Querem que vos conte dos segredos do Iona, da grandeza
maior que muitos países aí da Europa? Querem sentir a força da terra a subir pelas veias,
a entranhar-se nos corpos cansados da paz podre de uma civilização a estrebuchar?
Querem aquecer o sangue antigo nesta realidade de agora, saltar de espanto em espanto, sentir
que há, ainda, sítios onde é possível viver uma vida que vale a pena?
Irmãos do mesmo oceano, irmãos de outro continente, tal só é possível se também e ainda
acreditarem em milagres.
Porque Moçâmedes começou por ser um milagre antes de ser uma cidade. E o mesmo para Porto
Alexandre e o mesmo para Vila Arriaga e o mesmo para a Baía dos Tigres, a Lucira e todas essas
povoações esquecidas dos homens, espalhadas por um distrito onde cabem não sei quantas
metrópoles juntas.
A independência do Brasil está no princípio de tudo.
A história começa num Novembro de há 125 anos, quando a caravela brasileira "Tentativa Feliz",
escoltada pelo brigue de guerra "Douro", da Armada Real, ali desembarcou 166 passageiros, após
71 dias de mar.
Essa gente, desembarcada sob a protecção dos 26 canhões da fortaleza de S. Fernando,
recém-construída, recusara-se a aceitar o novo soberano e preferiu tentar a sorte em Angola.
Colonos pela força das circunstâncias, deram-lhes um deserto para ficar, com seus engenhos de
aguardente de cana, suas alfaias agrícolas, sua extrema teimosia e suas crenças em Deus e no rei.
Por primeira morada, num morro alcantilado que protege a baía de Moçâmedes - a Angra do Negro, de
Diogo Cão, em sua segunda viagem africana -, abriram caverna onde se alaparam.
O desafio estava aceite.
Um ano depois, chega de Pernambuco nova leva de colonos e suas famílias, 125 ao todo. Por isso,
no cemitério de Moçâmedes, as lápides mais antigas recordam gente nascida em Manaus, em
Pernambuco, no Rio de Janeiro e ali reunida, pelo acaso ou pelo destino.
Gente que lançou as bases de uma cidade-espanto, uma cidade-coragem, feita no desterro,
nas lágrimas, na falta de tudo. Ergueram novos engenhos e serviram-se de suor não pago para
as plantações de cana.
Firmaram os pés na fímbria do deserto e voltaram as costas ao mar. Ficaram.
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