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E veio Norton de Matos governar Angola e pôr, de facto, um termo à escravatura, proibir também a venda de aguardente, principal e desumano esteio económico de quem viera dos "brasis".

Então, e só então, Moçâmedes se voltou para o mar e com ele fez aliança.

Outros, adentraram-se pelo deserto, venceram os contrafortes da Chela, e deram origem a outras cidades.

A odisseia de Moçâmedes, repetiu-se em Porto Alexandre, na Lucira, na Baía dos Tigres. Odisseia que se vive ainda hoje, nos dias da técnica e dos supersónicos, no distrito mais humanamente pobre de Angola - menos de um habitante por quilómetro quadrado.

Em Porto Alexandre foi preciso erguer contra o deserto uma barreira de milhares de casuarinas, para conter as areias varridas pela "garoa". Acordava-se de manhã com o tecto das casas ao nível do chão - como acontece, agora, na Baía dos Tigres, vilazinha que nasceu num istmo, que o mar cortou.

Desde que, em 1860, após várias e malogradas tentativas, se estabeleceu uma comunidade algarvia, lutar pela vida era lutar contra o deserto, instável, que nada respeitava, nem as sepulturas dos que iam ficando: destapava-as, caprichoso, expondo as múmias embrulhadas em pano, que nem madeira havia para os caixões.

E, para complicar as coisas, bandos de hotentotes, expulsos da África do Sul, varriam as pequenas comunidades do Sul de Angola, em rapinas e morticínios.

E um navio de guerra inglês divertiu-se, um dia, a afinar a pontaria dos canhões, alvejando o povoado, de casas de pau-a-pique, com telhado de bordão e paredes de terra amassada, levada desde a foz do Curoca.

A proibição da venda de aguardente-de-cana veio provocar o declínio económico dos europeus que, entretanto, se tinham estabelecido em fazendas, pelas terras fertéis do Curoca.

Pouco a pouco, desapareceram os laranjais e os limoais, as plantações de algodão, de milho e massambala, de cana-de-açúcar e de batata-doce. Há dez anos, Porto Alexandre morria sossegadamente. Hoje, ali estão mais de dez mil almas.



O Peixe por Denominador Comum

Esqueçamos, por agora, os caminhos por de dentro do deserto, para falar do mar rico e dadivoso quase sempre, por vezes mesquinho e avaro.

Quando Moçâmedes descobriu o mar descobriu a sua fortuna. Apenas acontece que, até há bem poucos anos, não a soube explorar, não soube aproveitar a dádiva. Pesca por processos artesanais, tudo quanto vinha à rede era peixe para fazer farinha e óleo, fosse ele de que qualidade fose. Interessava o lucro fácil com investimento mínimo. Eram as salgas de peixe seco, quando muito, para vender em fardos malcheirosos, mas de bom preço.

Indústrias de frio, indústrias de conservas? Ora...

E assim, durante anos e anos, se delapidou riqueza. Questão de mentalidade, questão de princípios. Indústria pressupõe tecnologia e isso era palavra difícil até de dizer.

Agora não. As fábricas, moderníssimas, começaram a instalar-se na década anterior e não parece que a industrialização da pesca dê sinal de parar. Há, claro, muitos erros e omissões e pressões, internas e externas.

Por outro lado, apesar dos progressos verificados, o apetrechamento da nossa frota pesqueira deixa ainda a desejar. Daqui resultam crises cíclicas. Há peixe e é um vê-se-te-avias de construir prédios em Moçâmedes. Não o há, ou não há tanto, e as coisas complicam-se.

Apesar disso, Moçâmedes tem sempre o ar de uma cidade em férias. As pessoas não andam a correr atrás do tempo. Conservam os bons hábitos, embora se note que, não tarda, o ritmo de vida seja tão intenso como nas outras cidades de Angola.

Para já, a cidade perde o seu ar pitoresco, casas caiadas de branco, um pedaço de Algarve em Angola, para subir, em prédios incaracterísticos, a alturas desnecessárias, que espaço há-o e muito.

Por dentro do deserto, pela antiga rota das caravanas, chega-se a Vila Arriaga, por onde passa o caminho de ferro que vai até Serpa Pinto, capital do Cuando-Cubango.

Chega-se também à fortaleza de Capangombe, erguida em 1862, para proteger os caminhos da Chela.

A nova estrada asfaltada, que sobe a Leba em estranhas curvas - a mais difícil obra de engenharia até hoje empreendida em Angola - vem causar problemas à velha vila de repúblicanos ferrenhos.

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