Conheci a Fazenda S. Nicolau, lá onde começa o Deserto do Namibe, a Norte da cidade de
Moçâmedes, quando tinha 8, 9 anos. O seu actual nome é Bentiaba, que tomou do rio que ali
passa.
João Duarte d’ Almeida terá sido o seu primeiro proprietário e Serafim Henrique de Moura o
segundo. Mais tarde foi adquirida pela firma Pecuária e Agrícola, Lda. (Antunes da Cunha).
Foi nesta última situação que o meu Pai a administrou assim como as outras pertencentes àquela
firma.
Se para se atingir o topo da subida do Giraúl (v. "Aventura no Giraúl"), a bordo de uma
caminhonete, já era tarefa demorada, percorrer-se o trajecto de Moçâmedes a São Nicolau, naqueles
primeiros anos da década de 50, era algo que a imaginação dos que hoje percorrem as modernas
auto-estradas de modo algum alcança... Não me recordo de todo o trajecto, mas lembro-me bem de
uma subida, que não era muito inclinada, porém muito longa, que se desenvolvia em curvas e
contra-curvas... E, assim, íamos avançando em direcção à fazenda, a meio uma paisagem árida,
devagar... muito devagar...
A casa da fazenda era um edifício antigo, de dois pisos. O andar de baixo, uma ampla sala, tinha
várias funções, como a secretaria da fazenda, sala-de-jantar, sala-de-estar... nada demarcado...
tudo misturado... A camarata situava-se no piso superior: os adultos, no caso, os meus Pais,
para um lado; do outro, as crianças: o meu irmão, a nossa prima Lena Hugo (Vaz Pereira, de
sobrenome; Lena de Madalena e Hugo que era o nome do Pai, e assim se distinguia de outras
primas com o mesmo nome) e eu. Do nosso lado ficou também o nosso cozinheiro Rafael Mwangala.
À sua volta havia arvoredo... talvez tamareiras e também mangueiras... No início do
arvoredo reconheci a cacimba que fez parte integral, e principal!, da história do leão que,
rondando a fazenda, já tinha feito várias vítimas entre o gado. O leão conhecia bem as
redondezas porque foram feitas algumas tentativas antes de ter sido finalmente capturado. E
por que motivo a cacimba foi importante na solução da questão? Porque o leão foi atraído por
farolins apontados na direcção ao arvoredo... Quando animal saltou, no seu instinto atacando
para se defender, acabou caindo dentro da cacimba e foi ali abatido. É claro que há mais
pormenores de que não mais me recordo. Era uma das histórias que o Pai Saiago nos contava depois
do jantar...
Ultrapassado esse arvoredo que circundava a casa, tínhamos de fazer uma boa caminhada para
chegarmos à praia... as ondas formavam-se lá ao longe... esbatendo-se na areia... Explorámos
tudo, menos as lagoas. Estas surgiram porque ali o mar estava a recuar... Eram várias, de
pequenas dimensões e percorriam a costa, um pouco afastadas da rebentação. Na minha imaginação
de criança, acreditava que eram povoadas por repteis enormes, prontos a atacar-nos, caso
tivéssemos a ideia de nelas entrar :))
O Rio Bentiaba fica um pouco afastado da fazenda e, para lá chegarmos, tínhamos de ir de carro.
O meu Pai tinha conseguido que se construíssem pequenas embarcações e o pessoal da fazenda
auto abastecia-se de peixe. O local de desembarque ficava próximo da foz... caminhando à beira
do rio, os nossos pés enterravam-se na areia fofa e molhada... uma sensação fantástica!
As refeições eram participadas por todos... A da noite era rápida... os jovens ansiosos para que
terminasse depressa... Após o jantar, o meu Pai, apesar dos protestos da Mãe Lola, que temia
os animais selvagens que se sabia havia na região, levava-nos - os meus primos, o meu irmão, o
Rafael e eu - através da fazenda, de farolim em punho e munidos de um saco vazio, que voltava
cheio no regresso a casa... Íamos à caça dos caranguejos... enormes!... que se passeavam
calmamente... bastávamos pôr-lhes o pé em cima do carcaça (eram grandes, acreditem!),
imobilizando-os, e depois, agarrar as suas tenazes... Não tinham defesa! Destino transitório:
o saco... Transitório porque, chegados a casa, aguardava-os a panela com água a ferver,
condimentada com sal e gindungo (m.q. piri-piri, pimenta-malagueta). Há lá petisco
melhor??????
A visita à Fazenda S. Nicolau durou uns 5 dias. Nós crianças, preenchemo-los com divertimentos
típicos da nossa idade. Mais tarde, a fazenda foi vendida ao governo português e transformou-se
na tristemente célebre colónia penal política.
Lembro-me com carinho dos dias passados na fazenda. Porém, mais reconfortante ainda, é o
sentimento de tê-la conhecido numa época em que o local só me mostrou a sua beleza. A beleza
natural, a do seu povo, na sua labuta diária, tanto na fazenda como na faina da pesca...