Fazenda S. Nicolau

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A arte Mbali de S. Nicolau


Devo ao meu amigo moçamedense, Orlando Antunes Salvador, as 3 fotografias que apresento e que são da autoria de Ruy Correia de Freitas. Suficientes para mostrar a arte Mbali da região. Referimo-nos às cruzetas Mbali ou estelas funerárias do grupo angolano denominado Ovimbali, provenientes de várias regiões do país. O Pde. Estermann e outros fazem referência este grupo, nos seus estudos etnográficos.

O texto que transcrevo abaixo é também, tal como aquele em que me baseei para a crónica “O Morro Sagrado”, parte integrante do programa das II Grandes Festas do Mar, elaborado por Fernando H. Chaves (F. Chaves), intitulado “Moçâmedes Esta Desconhecida”, com documentação fotográfica sobre a evolução daquela cidade desde 1894 até 1963, nas áreas turística, etnográfica e arqueológica, com a data de 22 de Março de 1963.


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Esculturas de S. Nicolau

O cemitério de São Nicolau, de existência intimamente ligada à fazenda de S. João do Norte, de João Duarte d' Almeida, é, depois do cemitério indígena de Moçâmedes, um dos locais mais interessantes para o estudo da arte Mbali e, sobretudo, da obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba.

A arte Mbali, consequência do contacto cultural que se estabeleceu após a ocupação efectiva do Distrito entre os brancos e a mão-de-obra negra, é uma arte funerária, e traduz-se em cruzetas de pedra, madeira ou cimento armado, mais ou menos trabalhados, colocadas nas sepulturas, um ano após a morte dos indivíduos e por ocasião da festa da cruzeta. A eles é atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Assim era e é hábito dos canteiros inserirem nas cruzetas os utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores: temos, deste modo, o uso da mão cortada para indicar os manetas, o cachimbo de cangonha dos fumadores, o leão dos caçadores, a bola do futebolista, o chicote, a palmatória e o cajado do capitão, a cobra do que foi mordido por um ofídio, etc..

A maior parte das esculturas de S. Nicolau são, como acima se disse, obra do canteiro Victor Jamba, escravo de Duarte de Almeida, especializado em Lisboa em estelas funerárias. Daí a característica dos seus trabalhos apresentarem uma acentuada europeização das feições, cabelos e trajos. Da sua autoria, são as estelas do túmulo dos leõezinhos, as que representam um tratorista, um tanoeiro, etc.. Sendo o canteiro mais célebre e mais perfeito, não se pode porém deixar de o considerar também como sendo o mais convencional e menos interessante sobretudo quando compararmos com certos canteiros que souberam imprimir aos seus trabalhos, embora menos perfeitos, um alto cunho de originalidade.

A arte Mbali, uma bonita e rara expressão em África, tem no cemitério de S. Nicolau um dos seus melhores documentos que importa, a todo o custo, conservar.


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Nota: É minha intenção reunir documentação que, espero, me possibilite apresentar futuramente um trabalho mais pormenorizado e fundamentado sobre o povo Ovimbali e a sua arte Mbali.

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