Provérbios Angolanos na Literatura Oral
Texto de
Luís Kandjimbo
(*)
Um breve olhar sobre os provérbios angolanos,
a partir de recolhas efectuadas entre os séculos XIX e XX.
in Revista de Bordo AUSTRAL (TAAG - Linhas Aéreas de Angola), Nº 45, Jul/Ago/Set
2003.
Autorização para reprodução do texto concedida por AUSTRAL em 11 de Fevereiro de 2004.
A literatura angolana sob a forma escrita sedimenta-se apenas no século XIX. Porém, a criação
verbal oral é bem mais antiga. Remonta aos primórdios da própria comunicação humana. Por isso,
qualquer definição de literatura angolana hoje, não pode perder de vista aquele segmento a que
se chama oratura ou literatura oral. Trata-se de um acervo de textos orais que podem,
presentemente, ser conservador com recurso à escrita.
Conscientes do seu valor andavam alguns autores do séc. XIX. Não faz sentido ignorar tais
aspectos, na medida em que eles traduzem muito mais do que isso. Revelam a coexistência de
três tradições em que a literatura angolana se desenvolve. A mais antiga, a literatura oral
ou oratura, é aquela que nos remete para os tempos imemoriais.
Quando, nos anos 60, o linguísta ugandês Pio Zirimu forjou o termo oratura, decorria nas
universidades de Makerere no Uganda, Nairobi no Quénia e Das-es-Salaam na Tanzânia, um debate
sobre a hegemonia das línguas europeias. Mais de quarenta anos passados, são muitos os
defensores da ideia segundo a qual a oratura não é apenas uma vertente das literaturas modernas
em África. Encerra em si as conotações de um sistema estético, um método e uma filosofia.
(1)
Mas, se tivéssemos que acompanhar os debates que se desencadearam em Angola sobre o uso das
línguas locais e das suas literaturas orais, iríamos encontrá-los nos jornais publicados em
Luanda no século XIX. Tal era o vigor das reflexões que autores como Joaquim Dias Cordeiro
da Matta e o suíço Héli Chatelain deixaram para a história valiosas recolhas.
No entanto, a atitude assumida por Cordeiro da Matta não pode ser comparada com a de Héli
Chatelain, na medida em que, no plano do conhecimento, o primeiro desenvolve uma análise a
partir de uma visão endógena. O segundo é movido por um interesse fundamentalmente etnográfico
e exógeno, além de ter pretendido, segundo Geraldo Bessa Víctor, “pavonear-se com o primeiro
lugar, na ordem cronológica, à frente de autores de florilégios de provérbios angolenses, prémio
a que em verdade não tinha jus.”
(2)
Em todos os trabalhos de pesquisa realizados sobre a literatura oral angolana nos séculos XIX e
XX, os provérbios ocuparam sempre um lugar de destaque. Merecem referências as seguintes
obras: Elementos Gramaticais da língua Nbundu (1864), de Saturnino de Sousa e Oliveira/Manuel
Alves de Castro Francina; Kinbundu Grammar – Gramática Elementar do Kimbundu ou Língua de Angola
(1888-1889), de Héli Chatelain; Philosophia Popular em Provérbios Angolenses, Jisabu,
Jiheng’ele, Ifika ni Jinongonongo Josoneke mu Kimbundu ni Putu Kua mon’Angola (1891), de
Cordeiro da Matta; A Collection of Umbundu Proverbs, Adages and Conundrums (1914), da West
Central African Mission – A.B.C.F.M.; Missosso, volume I (1961), de Óscar Ribas; Selecção de
Provérbios e Adivinhas em Umbundu (1964), do Padre José Francisco Valente; Sabedoria Cabinda –
Símbolos e Provérbios (1968), do Padre Joaquim Martins; Filosofia Tradicional dos Cabindas
(1969-1970), do Padre José Martins Vaz; Dizer Assim (versões em português de provérbios da
língua Umbundu, 1986), de Costa Andrade; Ingana Ye Mvovo Mya Bakongo (provérbios e máximas dos
Bakongo, 1998), de Miguel Barroso Kyala.
No contexto plurilinguístico angolano, o provérbio tem diferentes designações. Diz-se
Olusapo na língua Umbundu; Omuhe ou Omuse em Niyaneka-humbi;
Ingana em Kikongo; Jisabu em Kimbundu; Ikuma ou Cikuma em
Cokwe.
(3)
Dentro da classificação de textos literários orais, o provérbio representa o tipo de textos que,
apesar da sua autonomia, pode no entanto entrar na construção de outros textos. Constituindo
uma categoria de um conjunto que inclui ditados e máximas, caracteriza-se pela brevidade,
associando-se-lhe uma estética da transmissão de pensamentos, crenças, ideias, valores e
sentimentos. No que à sua estrutura diz respeito, o provérbio é um texto sintético e de uma
grande densidade semântica.
Um provérbio carrega sempre dois sentidos – literal e conotativo – implicando um significado
secundário. A passagem do primeiro ao significado secundário, cuja coerência é possível
detectar em determinadas circunstâncias, constitui o núcleo da sua beleza, justificando por
isso o esforço de interpretação que ele exige.
A estrutura dos provérbios normalmente é bipartida, apresentando premissas em dois membros ou
orações da frase, numa configuração aparentemente silogística.
Além do sentido literal e do sentido conotativo, há que referir o tema, isto é, a lição a reter,
a síntese subjacente ao significado das palavras e de que se parte para a extracção da ideia, do
valor, do pensamento, enfim o ensinamento moral ou filosófico. Ao incidirmos sobre o tema,
estamos a dar destaque à natureza pedagógica dos provérbios, porque deste modo a eles se recorre
para exprimir algo que diga respeito aos diferentes aspectos da vida.
O jurista angolano Moisés Mbambi, enquanto falante da língua umbundu, seleccionou um conjunto
de provérbios contendo princípios jurídicos fundamentais do direito, expondo a sua interpretação
no contexto do pensamento jurídico de origem ocidental, mais especificamente dos diversos ramos
de direito.
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Com o elenco que se segue, exemplifico o exercício de interpretação dos provérbios
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veículados em Umbundu, uma das línguas Bantu faladas em Angola.
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- Ekepa kalilinasi l’ositu, omunu kavokendi lomwenho (o osso não é deitado fora com a
carne, a pessoa não é sepultada com vida).
O osso está para a carne assim como a pessoa está para a vida. Este provérbio pode ser
proferido quando se pretende ensinar ou elucidar alguém sobre a importância da relação existente
entre a pessoa, as partes do seu corpo e a própria vida. A relação existencial que se observa
nas duas orações do provérbio, permitem inferir a construção de uma metonímia, pois o valor da
carne e da pessoa humana é aferido por uma das suas partes. É que não há carne sem osso, mas
também não há vida humana sem pessoa.
- Ekova k’omanu, ochipa k’inhama (a pele humana caracteriza as pessoas, a pele dos
animais tem um nome diferente).
Não se deve confundir a pessoa com os animais. Apesar da pessoa e os animais possuírem pele,
há na sua aparência uma diferença essencial e profunda. O que permite distingui-los. Por
isso, tendo em atenção a dignidade humana, não se pode maltratar as pessoas como se fossem
animais. Se quiser ser tratado como pessoa, deve cuidar mais da higiene, para não se assemelhar
a um animal. A metonímia observa-se aqui igualmente. A aparente semelhança das partes não
pode ser critério para avaliar o todo de duas realidades distintas.
- Ekova liyetimba, olondunge k’utima (a pele cobre o corpo humano, o juízo – ou a
responsabilidade moral – cobre o coração humano).
Do mesmo modo que o corpo revela o aspecto físico exterior, assim o grau de responsabilidade e
integridade moral determinam o carácter da pessoa. O aspecto físico exterior não traduz o valor
e responsabilidade morais de uma pessoa. Os homens não se medem pela estatura física. Antes
pelo contrário, valem pela sua dimensão espiritual e interior.
- Onjimbo l’elungi, omunu l’onjo (o papa-formigas vive na cova, a pessoa habita uma casa).
Um animal como o papa-formigas vive em qualquer cova que encontrar, já a pessoa tem sempre uma
casa. Enquanto as covas abundam na selva, os homens constróem as casas de acordo com as suas
necessidades. Os animais não transformam a natureza como os homens. A dignidade da pessoa
não se confunde com o modo de vida dos animais.
- K’ono kwatota, omanu valuka (secou a nascente do rio, as pesoas mudam de lugar).
Há uma relação de causa e efeito entre a existência de um rio e a constituição de aglomerados
populacionais nas suas proximidades. A água é indispensável para a sedentarização dos homens
e quando a fonte seca, parte-se à procura de outro lugar.
- Longa ochinhama, kukase omunu (alveja-se o animal, não se apedreja a pessoa).
O animal pode ser alvo de caça, mas a vida humana é sagrada e deve merecer respeito. A pessoa
nem sequer deve ser apedrejada.
- Omunu nda ñgo wafa kami ondalu, ava vasyala vayota (a pessoa que morre não extingue
o fogo, os vivos continuam a servir-se dele – o fogo).
Apesar da morte, que é uma contingência que afecta os homens, a vida prossegue com os vivos. A
substituição e a sucessão são incontornáveis no mundo das relações sociais. A morte não põe
termo à sobrevivência comunitária. Não há pessoas insubstituíveis.
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(*) Ensaísta e crítico literário.
(1) Ver Ngugi wa Thiong'o, Penpoints, Gunpoints and Drums. Towards a critical theory
of the arts and the state in Africa, Oxford, Claredon Press, 1998, pp. 103-128.
(2) Geraldo Bessa Víctor, Ensaio crítico sobre a primeira colecção de provérbios
angolenses, Lisboa, 1975, p.23.
(3) Ver António Fonseca, Contribuição ao estudo da literatura oral Angolana, Luanda,
INALD, 1996, p. 52.
(4) Moisés Mbambi, O Direito Proverbial entre os Ovimbundu, Comunicação apresentada ao
Colóquio do FENACULT, 1989.
(5) Ver José Francisco Valente, Selecção de Provérbios e Adivinhas em Umbundu, Instituto
de Investigação de Angola, 1964.
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