Quando decidi lançar-me nesta aventura de recordar a história da família, sabia que,
irremediavelmente, haveria factos relacionados com Angola que não poderia deixar passar em branco.
Entre outros, imediatamente me vieram à mente as regatas dos pescadores que anualmente se
realizavam na cidade do Lobito. Era um evento que envolvia pescadores do Lobito e de Benguela.
Os vencedores de uma e de outra cidade recebiam como prémio um barco novo, apetrechado com todo
o equipamento para a actividade principal dos concorrentes: a pesca. O vencedor do Lobito
recebia um barco com o nome da cidade de Benguela e vice-versa. Uma maneira de manter a boa
vizinhança...
A relação estreita do Lobito com o mar fazia com que a regata tivesse o seu público garantido.
Eu fazia parte desse público. Não porque dominasse a matéria, isto é, como remar, com velas ou
sem velas, onde e como ir à bolina... Termos que ouvia e não compreendia bem... Porém, essa
minha ignorância não impedia que estivesse presente e, de tal modo me entusiasmava, que nunca
deixei de fazer reportagens fotográficas das várias regatas a que assisti.
Aqueles que terão assistido lembrar-se-ão da largada "sui generis": à "Le Mans"! A
excitação que a modalidade provocava nos concorrentes era evidente. Mas os espectadores
não lhes ficavam atrás...
No areal do lado do mar alto, os pescadores aguardavam o apito do Capitão do Porto do Lobito
para, numa corrida desenfreada, se dirigirem aos seus barcos, assentes na areia, as velas
enroladas, e, com a rapidez que a sua destreza lhes proporcionava, os colocarem na água, içarem
as velas e remarem em direcção à ponta da Restinga.
Garotos e jovens mais corajosos acompanhavam-nos, correndo ao longo da costa, transpondo os
"esporões", até onde lhes era possível. Outros, como eu, pegavam o carro e lá iam, na
velocidade permitida, seguindo os concorrentes, até que, na ponta da Restinga, estacionávamos o
carro e assistíamos à sua entrada na barra. Ali, era um ver-se-te-avias para arranjar o melhor
lugar nas pedras enormes que ali tinham sido colocadas há muito tempo, para de mais perto
observar os corredores...
Era nesse ponto que eles tinham de mudar de táctica: dali em diante, teriam de baixar as velas e
remar até à fábrica de cimento, no Lobito Velho, do outro lado da baía, e daí dirigirem-se à
Capitania do Porto do Lobito... a recta final!
Era um espectáculo bonito de se ver, pelo percurso e também porque tínhamos a oportunidade de
apreciar o esforço físico daqueles homens no sentido de tudo fazer da melhor maneira, tendo
como alvo final a conquista do tal barco novo.
A chegada à Capitania era barulhenta, confusa, até, os espectadores a acotovelarem-se para melhor
ver e apreciar a alegria dos vencedores!
Ofereço aos lobitangas algumas fotografias dessas regatas. A qualidade de algumas não é famosa...
já lá vão alguns anos... mas mostram uma das "caras" da cidade de que tanto gostamos. A da
chegada é do Quitos e foi cartão de Natal.