A escultura é o "hobby" do arq. Canhão Bernardes, antigo funcionário do Caminho de Ferro
de Benguela. Várias obras suas estão espalhadas pela cidade do Lobito.
A minha preferência vai, em primeiro lugar, para a "Sereia" e, logo depois, para "Os
Caminhantes".
"Os Caminhantes" situam-se no topo da Colina da Saudade, a passagem elevada que liga a Restinga
à área comercial e aos bairros da Caponte, Canata... Luz... outros bairros... outras cidades...
Debaixo da colina passa o ramal ferroviário que leva até ao porto do Lobito as mercadorias
trazidas do interior de Angola e de outros países (República Democrática do Congo e Zâmbia) e
que embarcarão e seguirão para os mais diversos destinos...
A "Sereia" é, de longe, a minha preferida. É claro que foi inspirada na de Copenhaga,
Dinamarca. A meu ver, o seu autor foi feliz na sua criação na medida em que, por estarmos em
África, marcou muito bem a diferença entre o original da Europa e a sua obra: ela representa a
mulher negra... a sua postura transmite, através do metal, a raça representada.
Nem sempre a sereia lobitanga está solitária no seu pedestal: as gaivotas encontram ali uma
oportunidade para descansar dos seus voos incessantes, à procura de peixe, o seu alimento
preferido...
Mas é o mar o seu eterno companheiro... umas vezes, um mar azul, quase sem movimento, sob o sol
que, no Verão, começa a ser tórrido desde as primeiras horas da manhã... outras, no
"cacimbo" ou cacimba, o tempo frio, porque ali não há estações definidas... de uma cor
acinzentada... outras ainda, no final do dia, o mar revolto, cor de chumbo, adivinhando chuva,
o vento formando "cordeirinhos"... (habitualmente, o vento é Sul-Norte) ... parecem um rebanho,
a correr em direcção à entrada da baía...
Apreciava-lhe a companhia... A sereia negra é a presença constante, ali na curva da baía,
entre a Capitania e o restaurante "Tamariz".
É claro que não era somente minha companhia... Posso apostar que a grande maioria dos
lobitangas, no seu contínuo vaivém por ali, não deixam de voltar os olhos para ela e ter o mesmo
tipo de sentimentos...
... e assim ela foi garantindo o estatuto de companheira amiga de todos os dias...
... de tal modo que, num dia de muito frio, hehehe... o frio do Lobito!... quando passámos pela
nossa amiga sereia, tivemos uma surpresa: alguém tinha apanhado um barco ou um bote - porque
não é possível chegar lá doutro modo -, e tinha-a protegido do frio, cobrindo os seus ombros com
um manto...
Houve muitos sorrisos... mas também compreensão... Afinal, se a sereia fazia realmente parte
do nosso dia a dia, nada mais natural do que ser lembrada naquele dia frio, colocando-lhe um
agasalho nos ombros, tal como nós próprios fazemos...