No Lobito, a "rua" à frente da nossa casa era nossa e dos nossos vizinhos... Gozávamos de
privacidade e usufruíamos de uma magnífica vista: a bela Baía do Lobito!
Parece-me que se chamava Combatentes da Grande Guerra (os nomes de rua nunca foram o meu forte!).
E, se não me engano, passou depois a chamar-se Rainha Ginga. O nome não importa. Acho muito
justo homenagear-se a rainha angolana na sua terra natal, embora todos os que combateram na
Grande Guerra (como o meu Avô materno, que a combateu no Sul de Angola e, em consequência dos
ferimentos sofridos, veio a falecer tão jovem!) jamais devam ser esquecidos.
Até para se meditar nos seus horrores e cada um de nós tentar o seu melhor para que este mundo
possa vir um dia a ser um lugar de Paz. Depende somente dos homens. Um parêntesis que abro
porque as imagens que vemos todos os dias nos agridem e nos entristecem!
Quem não conhece ou não se lembra do local onde eu morava no Lobito, perguntar-se-á por que razão
escrevo a palavra rua entre aspas.
Pois bem: de rua, ela tinha pouco. Começava no quarteirão anterior, ali, onde estavam os
armazéns da Biopesca e outras casas de pescadores e não só, e terminava à frente do prédio onde
morávamos. Ali, então, ela não passava de um pedaço de chão, que terminava onde terminava o prédio. Os
nossos carros entravam lá, sobrava um pedacinho de cada lado, e, quando queríamos sair,
engatávamos a marcha atrás e pronto!, resolvida a questão!
Verdade seja dita que, junto aos prédios vizinhos, olhando à esquerda, vislumbravam-se umas
estacas de madeira que, sabia-se, eram representativas da esperança que, um dia!, ganhando-se
mais um pedaço de mar, a nossa rua teria continuidade e, consequentemente, deixaria de ser só
nossa! Infelizmente, a obra ficou por fazer...
Descendo as escadarias, no paredão, podíamos até andar por ali se a maré estivesse baixa. Na maré
alta, o mar lambia o paredão. Mar calmo umas vezes; outras, quando passava um daqueles navios
mais apressados, uma traineira vinda da faina da pesca (com aquela gaivota na proa, como que
capitaneando a embarcação) ou uma lancha em grande velocidade, as ondas batiam no paredão com
força, ruidosamente.
Concluindo, eram dois quarteirões muito mal medidos! Mas, que importa o comprimento da rua, se
éramos uns privilegiados? Assistíamos "de camarote" a tudo quanto na baía acontecia!...
Olhando para o lado esquerdo, podíamos vislumbrar a chegada dos navios através da estreita
entrada da baía. Assistir, por vezes, à luta para tirar um navio cujo comandante, mais afoito,
tentara entrar sem a ajuda da capitania e acabara preso nos bancos de areia.
No tempo dos barcos belgas, assistíamos, incrédulos, da janela da nossa sala-de-estar, à maneira
incauta e até irresponsável com que, numa velocidade acima do permitido e do razoável, eles iam
por ali fora, em direcção ao cais. Eram os vapores do álcool, diziam as más-línguas..., que não
lhes permitia agir doutro modo! Embora a baía fosse muito funda, por vezes passavam tão perto
de nós que conseguíamos, até, vê-los e ouvi-los falar e exclamávamos: "Vão bater! É impossível
que cheguem inteiros ao cais!"
À nossa frente, o Lobito Velho... nos morros da Quileva... Verdes, que dava gosto, no tempo das
chuvas! Amarelados, no temo seco e frio..., frio, dizíamos nós... que ainda não tínhamos
aprendido o que realmente é frio!!!