Durante a tarde, depois de terem terminado as suas tarefas, lá estavam os jovens empregados dando
umas braçadas. Quando um deles gritava: "Olhó tubarão!!!", recordes de natação eram batidos...
e mundo deles não tomou conhecimento!
Os espectáculos que a nossa "fox terrier", a "Laika", proporcionava quando se lançava ao
mar, em perseguição a um rato... ratazana... ou coelho?!? Quando finalmente o apanhava e o
dominava, trazendo-o como um trofeu de volta para terra, era ovacionada com uma salva de
palmas de todos quantos, das janelas dos prédios vizinhos, assistiam e torciam para que ela
conseguisse fazer uma boa caçada...
Ainda do mesmo lado da baía, um pouco à direita, lá estava a fábrica de cimento e também o
estaleiro naval, que prestava assistência a quase toda a costa ocidental da África Meridional e
Central.
Se prestássemos atenção, podíamos, até, ouvir, os sons que dali vinham. O apito da manhã (dez
minutos para as sete?, oito?), o do meio-dia...
Mas estes são sons do dia.
Olhando para a direita, vislumbrávamos o cais, lá ao fundo... Os sons ali produzidos eram de
todos nós conhecidos, tão característicos da azáfama da actividade portuária. Mas, também
estes são sons do dia... e também podiam ser da noite, porque o trabalho ali entrava noite dentro.
Na época natalícia, à noite, bastava sair do prédio, novamente olhar à direita, e lá estava a
árvore de Natal... Toda iluminada, emprestando ainda mais beleza à baía! Adicionando à
já magnífica vista nocturna (o clarão da cidade do Lobito via-se a dezenas e dezenas de
quilómetros de distância!) um toque todo especial!
Som... só o do coração a bater forte, emocionado com tão linda visão! Mas esse é um som que só
cada um de nós ouve, mais ninguém.
A quantos mais sons me poderia referir? A todos os que fazem parte da vida de uma cidade.
Mas são os sons da noite lobitanga que me vêm mais vezes à lembrança.
O som não muito agradável que me acordava, não importava a hora da noite, da âncora do barco
recém-chegado e que deveria esperar pela manhã ou, quem sabe?, mais tempo, para atracar.
Primeiro, lançavam a âncora e um bom pedaço de corrente. Mas a baía é funda! Assim, iam
soltando a corrente, pouco a pouco... roque.. roque..., roque... roque..., até que,
finalmente, o barco ficava seguro, bem preso ao fundo do mar!
Havia os pescadores furtivos..., furtivos porque a baía era considerada um viveiro e não era
permitido pescar ali. Eles vinham nos seus barcos e o chape-chape dos remos a cortarem
cuidadosa e silenciosamente a água era quase ininteligível. Comunicavam-se por palavras
sussurradas e assobios convencionados. Eventualmente, levantava-me e ía vê-los. Não nos
comunicávamos, mas sentia-se a cumplicidade no ar.
E o batuque? Ah!, o batuque!... Bastava o vento estar de terra para o mar e nós estávamos ali...
no caminho...
Às vezes ficava acordada, na cama, a ouvi-lo. Outras, não resistia: levantava-me, punha um
robe e ia para a nossa "rua", à beira do paredão, ver o mar bater nas pedras ou a lamber as
areias e ouvir o batuque. Forte, quase sempre igual, mas num crescendo, que me fazia esquecer o
mundo ao redor e concentrar os sentidos naqueles sons... o do mar... o do batuque...